Antecipar diagnósticos, nomeadamente em termos de incidência do cancro e, no fundo, salvar vidas, são benefícios apontados à IA na área da saúde. Pode partilhar mais exemplos práticos?
Começando por aquilo que já existe, as vacinas e os medicamentos estão a ser desenvolvidos com o apoio e a ajuda da IA. A vacina para a Covid foi um exemplo de algo que demorava 8 a 10 anos, passou a demorar cerca de um ano ou menos, com a aceleração deste processo. Ao nível da prevenção, a utilização de modelos preditivos possibilita que um surto de gripe seja mais rapidamente antecipado, criando-se vacinas de modo mais célere e, diminuindo, deste modo, a pressão da população, nas unidades hospitalares e centros de saúde. Nas intervenções, a cirurgia robótica já está em todo o lado e é usada para múltiplas operações. No campo do diagnóstico, na área da imagiologia, por exemplo, as máquinas de ressonância magnética e TAC quase todas já têm uma componente de IA e conseguem detetar um cancro, por exemplo, em estadios em que o olhar humano não o consegue fazer. Há tecnologias que conseguem detetar o cancro da mama cinco anos mais cedo, comparativamente com as tecnológicas convencionais.
É um progresso enorme que pode salvar vidas e retirar pressão aos serviços de saúde…
O impacto disto para a vida das pessoas significa a diferença entre a vida e a morte, a diferença entre uma enfermidade que é tratável e uma enfermidade que já não é tratável, exigindo terapias combinadas, com mais custos, mas o mais relevante, com pior prognóstico e pior qualidade de vida para as pessoas. Com estas novas tecnologias, objetivamente, melhoramos a sobrevida, a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas. E não é só nos países mais desenvolvidos. Em África, já existem máquinas portáteis para ecografias via IA, que permitem que os cuidadores de saúde façam um exame rápido a uma mulher grávida. Do resultado dependerá a decisão de empreender ou não uma longa viagem até à capital do seu país, diminuindo assim a mortalidade neonatal. Por seu turno, as sociedades europeias – confrontadas com o envelhecimento da população – também podem beneficiar da monitorização à distância dos cidadãos dependentes com recurso a robótica ou assistentes virtuais que ligam aos idosos para lhes lembrar que têm de tomar os medicamentos. Estes casos que descrevi não são futurologia, são tecnologias que já hoje são uma realidade.
No meio deste maravilhoso mundo novo, onde é que fica o trabalho dos médicos e dos enfermeiros, por exemplo?
O trabalho destes profissionais não será substituído, mas antes fortemente complementado. As máquinas possuem uma coisa que os seres humanos têm de forma limitada: tempo para lidar com as pessoas. Um médico dispõe, em média, 10 a 15 minutos para interagir com um doente, enquanto um assistente virtual pode estar a falar em permanência. Mas é preciso ressalvar que há cuidados a ter. Não se vai entregar um paciente com problemas de saúde mental a um assistente virtual, sem as devidas garantias de segurança daquela tecnologia. Sem confiança não iremos ver esta tecnologia a vingar.
Considera que existe um potencial de colaboração entre os humanos e a IA. Mas noutros domínios, podemos esperar a extinção de algumas funções com o crescimento da AI em todos os setores de forma transversal?
Algumas tarefas vão, inevitavelmente, ser substituídas. A IA é particularmente competente em tudo o que exige ações padronizadas. Por exemplo, a deteção de fraude que é uma matéria intimamente ligada ao exercício da atividade dos contabilistas certificados. Estes sistemas vão permitir identificar desvios e fugas ao padrão, ajudando os seres humanos a sinalizar situações que, provavelmente, podiam passar à margem, simplesmente porque não é possível ter um tempo infinito para analisar toda a documentação. Para além disso, há um conjunto de tarefas administrativas burocráticas que também podem vir a ser realizadas por IA, levando à substituição de quem atualmente ocupa esses postos de trabalho.
O futuro passa pela requalificação dos trabalhadores e a uma nova abordagem aos métodos de ensino?
Os tempos que vivemos exigem que nos preparemos – em particular as gerações mais novas – para uma nova abordagem na formação base e na formação ao longo da vida, privilegiando a adaptação e o ajustamento para novas competências, maximizando o potencial da IA. Estou em crer que o maior impacto acontecerá no contexto das empresas e nos países que não se prepararem para esta inevitável transformação. Os modelos de negócio e de governança terão de se adaptar a esta nova era. A IA dá-nos a oportunidade para reimaginar os diferentes setores da sociedade, por completo. E os líderes do futuro serão os que vão ter o discernimento para reconfigurar o seu sistema à luz do potencial destas mudanças.
Essa reconfiguração também impacta, naturalmente, nos sistemas de saúde?
Também. Mas estou a falar mais além. Falo de uma reconfiguração mais ampla, em termos sociais. E é essa a obrigação que compete aos nossos governantes, aos nossos líderes e aos nossos gestores. No caso da saúde preocupa-me ver a utilização da tecnologia à base de IA para tornar determinados processos em curso mais eficientes. É sabido que o nosso sistema de saúde é insustentável e tem processos altamente ineficientes. Se vamos utilizar a IA para tornar os processos mais eficientes, corremos o risco de ser mais eficientes, mantendo a… ineficiência. Parece contraditório, mas é isto que acontecerá se não repensarmos urgentemente os sistemas. Caso contrário, as oportunidades proporcionadas pela IA serão desperdiçadas e os ganhos pontuais e limitados. No contexto da saúde é preciso responder à questão: como é que a tecnologia vai melhorar, efetivamente, a qualidade de vida, o bem-estar e os ganhos do cidadão individual e da comunidade? Singapura é, de momento, um caso à parte, já tendo transformado o seu sistema de saúde, orientando-o para a prevenção e reduzindo a carga da doença com o apoio da tecnologia.
Aquando do lançamento do seu livro, «Um caminho para a cura – Propostas para o sistema de saúde português», editado em 2020, disse que o ministério que tutela a área agia mais como se fosse o ministério da doença, quando devia ser, tal como o nome indica, o ministério da Saúde. O que fazer para corrigir este paradoxo?
Com uma população a envelhecer existe a preocupação de ter os sistemas de saúde reativos, mas que, na verdade, se limitam a tratar doenças. Deste modo, o que temos é um sistema de doença e não de saúde. Assim sendo, a tecnologia pode acrescentar pouco e não nos servirá. A estratégia não serve a tecnologia, a tecnologia é que deve servir uma estratégia. Se não operarmos a transformação necessária, o sistema, tal como está desenhado, que não dispõe de meios infinitos, atingirá um ponto de rutura. E a capacidade de resposta será cada vez menor: mais filas de espera e pior qualidade de serviço.
Com os serviços nacionais de saúde pressionados e alguns à beira do colapso, muito também devido ao aumento da esperança média de vida dos cidadãos, em que medida é que a IA pode transformar e reconfigurar os sistemas de saúde?
Tudo deve começar numa lógica de incentivos que é preciso inverter. Explico: atualmente, a maior parte do financiamento em saúde é feito para premiar a execução de processos. Quantas cirurgias são feitas, quantos exames complementares diagnóstico são feitos, quantas consultas são ministradas, etc. No fundo, estatísticas. Quando o que devemos medir é se as pessoas estão mais ou menos saudáveis, premiando em função dessa avaliação. Na prática, se premiarmos apenas os procedimentos, premiamos apenas os que mantêm as pessoas doentes e não os que as tornam saudáveis, quando o que devia ser feito era detetar doenças mais cedo ou por via de padrões de risco identificar pessoas que podem vir a desenvolver uma doença. Em resumo, a mortalidade evitável é enorme e a forma como o sistema está montado gera muito desperdício. De um modo geral, cerca de 20 por cento das despesas em saúde não se traduzem em qualquer melhoria na qualidade de vida das pessoas. Este caminho não pode continuar. É preciso reimaginar o sistema, alinhando os incentivos com os ganhos em saúde. Ao mesmo tempo que colocar à disposição da IA os dados em saúde da população para que o potencial destas tecnologias possa ser maximizadas em termos de ganhos de saúde. Sem dados, a IA funcionará como um carro potente, mas sem gasolina.
O SNS ultrapassou, para muitos, as melhores expetativas em termos da sua capacidade de resposta durante o período mais agudo da pandemia, mas expôs fragilidades que já vinham do passado e que hoje estão completamente à vista de todos?
A pandemia expôs muitas fragilidades do país, não apenas no SNS, mas no setor social, de uma forma geral. Recordo que muitos lares eram completamente desconhecidos das autoridades até a pandemia se abater sobre o nosso país, com elevada mortalidade na população mais idosa. Pode dizer-se que foi uma externalidade positiva o facto de a pandemia ter reduzido o número de lares ilegais que operavam em Portugal de uma forma vergonhosa. No campo da saúde os profissionais aguentaram um sistema no limite dos limites, mas que teve o preço enorme que hoje estamos a pagar. Profissionais exaustos, desmotivados e alguns a abandonarem para o privado ou para o estrangeiro. Esta espécie de sentimento de esgotamento que acometeu o SNS, resultante de uma combinação de fatores, dificilmente se consegue ultrapassar sem mudanças profundas. A pandemia foi de tal maneira impactante e negativa que depois de ter terminado, politicamente, durante um período, deixou de se falar de saúde. E foi apenas há cinco anos. Mas morreram mais de 20 mil cidadãos portugueses e milhões à escala global. Isto é explicado pelo trauma que é causado só por voltar a abordar o tema quando seria este o momento ideal para refletir sobre as lições aprendidas sobre o que correu bem e o que falhou.
Teme que não estejamos preparados para novas emergências globais de saúde?
Os riscos estão ao virar da esquina. O mundo é cada vez mais globalizado e as pessoas viajam com maior frequência. O acesso à manipulação genética é mais fácil, as ameaças do bioterrorismo existem e o risco de novas ameaças biológicas, naturais ou artificiais, é de tal forma grande que Portugal, enquanto país, tem de estar melhor preparado. Ainda para mais numa altura em que a Europa está em guerra e há um claro assumir da aposta na segurança e defesa. O bioterrorismo e a preparação para as ameaças de saúde global deviam estar, igualmente, no topo das preocupações e prioridades dos governos. O investimento em defesa e a segurança de um país não pode passar apenas por drones e fragatas. As maiores ameaças poderão vir a ser de natureza biológica.