Entrevista
Entrevista a Ricardo Baptista Leite, médico e CEO da Health AI
13 Janeiro 2026
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«A IA é particularmente competente em tudo o que exige ações padronizadas»


A IA vai «reimaginar», por completo, múltiplos quadrantes da sociedade, em especial o da saúde, reconfigurando sistemas, bem como os modelos de negócio e de governança. Para Ricardo Baptista Leite, médico e CEO da Health AI, a contabilidade não ficará à margem desta transformação, possibilitando converter os contabilistas certificados em profissionais muito mais eficazes, com um potencial de negócio mais interessante e adquirindo «uma dimensão que nunca tiveram na vida dos negócios e no país.»


Contabilista – É o CEO da Health AI, uma agência global para o uso responsável da Inteligência Artificial (IA) na saúde, com sede em Genebra. Pode partilhar a missão desta organização e, em simultâneo, o ponto de situação do desenvolvimento e aplicação destas tecnologias de ponta a nível global?

Ricardo Baptista Leite – A Health AI é uma entidade sem fins lucrativos, cuja sede se localiza em Genebra, na Suíça, devido à parceria com a Organização Mundial de Saúde e, por esta via, colaboramos com os governos de todo o mundo, apoiando-os na construção da sua capacidade regulamentar, bem como na capacidade de avaliação da aplicação das tecnologias da IA dentro dos seus sistemas de saúde. No fundo, ajudamos os países e os governos a criarem os ecossistemas para que estas tecnologias se possam disseminar, contribuindo com melhores resultados para a saúde, o bem-estar e qualidade de vida das populações. Estamos, neste domínio, a viver uma autêntica revolução, porventura a mais relevante desde a revolução industrial, no século XIX. A IA abre-nos a porta para transformar praticamente todos os domínios da sociedade, sendo a saúde a área que mais pode vir a beneficiar destas tecnologias. Porém, é preciso garantir que estas tecnologias são seguras, verdadeiramente eficazes e que alcançam quem mais delas precisam. É isto que explica que a nossa missão seja feita tanto nos países mais ricos, como nos países de médios e baixos rendimentos.

As assimetrias globais também se fazem sentir, certamente, neste domínio. Nesta corrida, quem é que surge na vanguarda?

Estados Unidos e China estão, claramente, na vanguarda em termos de desenvolvimento de tecnologias. Singapura, Israel e Reino Unido também surgem bem posicionados. A Europa não está na linha da frente, mas quando olhamos para os países de baixos e médios rendimentos no sudeste asiático, na América Latina e África subsaariana verificamos que se regista uma enorme desigualdade, que já existia, aliás, no mundo digital. África é o continente onde o acesso à internet é mais caro. E o mesmo se passa no acesso à energia, ao capital humano com literacia digital, etc. Já para não falar da questão regulamentar, que é uma competência que a maioria dos países anda desconhece, o que dificulta a absorção destas tecnologias.  Em suma, na área da saúde, no âmbito da prevenção, diagnóstico e tratamento, a tecnologia à base de IA pode ser verdadeiramente transformadora. Contudo, trata-se de um potencial que ainda não foi completamente libertado.

Foi nomeado em outubro pelo governo britânico para a comissão de regulação da IA na saúde. Enquanto perito, qual o papel que desempenha?

O Reino Unido é um dos países que se associou à Health IA e tem um governo que, na área da saúde, pretende maximizar o potencial da IA. E fá-lo numa perspetiva económica e de inovação, fomentando a indústria de desenvolvimento destas tecnologias para o mundo, e por outro lado ambiciona criar um ecossistema próprio através do NHS, o serviço nacional de saúde inglês. Nesta comissão, constituída por peritos britânicos e internacionais, pretendo aportar o meu conhecimento, nomeadamente na forma como as entidades reguladoras fazem o balanço entre inovação e a regulação. Para já, o Reino Unido percebeu que só criando uma regulação que promova a inovação é que conseguirá ser diferenciador e acelerador neste processo, no contexto do mercado global. Enquanto perito da comissão procuro também contribuir para a criação de um ecossistema e de um enquadramento legal que permita assegurar segurança para os cidadãos e inovação no desenvolvimento destas tecnologias em IA para a saúde.

Como pode ser garantida que as mais recentes tecnologias aplicadas à saúde contribuam para a segurança e a eficácia nos cuidados de saúde? A regulamentação a várias velocidades é um obstáculo?

Isso já está a acontecer. Há países sem capacidade de regulamentação, onde são usadas tecnologias que não sabemos se são verdadeiramente eficazes e seguras. E há também aquilo a que chamamos a “banha da cobra” a ser vendida, o que coloca os cidadãos em risco. O viés dos dados também precisa de ser avaliado. Por exemplo, uma tecnologia feita nos EUA pode ser utilizada no nosso contexto? É importante, e estamos a trabalhar para isso na Health IA, que todos possam beneficiar da subida da maré, para que esta não seja uma realidade reservada a meia dúzia de países ricos, como hoje se verifica.

O uso de IA no contexto da saúde pretende ser inclusivo, mas se continuarmos por este caminho poderá, ao invés, por acentuar as desigualdades no seu acesso?

É esse o caminho que estamos a ver à escala global, com a IA a ser um acelerador de desigualdades, que é preciso contrariar. E isto acontece não só na área da saúde, mas sente-se mais nesta dimensão pelo facto de IA estar em franca expansão. Trata-se de um processo que envolve grandes níveis de desenvolvimento e os colossos norte-americano e chinês estão na linha da frente. De qualquer forma, é de realçar a opção estratégica tomada por alguns governos de dar o passo em frente, aproximando-se do pelotão da frente no que à adoção de tecnologias diz respeito. No campo da saúde é sabido que as desigualdades são uma causa de doença e, como tal, é urgente que quem lidera os sistemas de saúde compreenda que a tecnologias da IA devem ser adotadas numa lógica de equidade, para que todos os cidadãos possam ter acesso.


Antecipar diagnósticos, nomeadamente em termos de incidência do cancro e, no fundo, salvar vidas, são benefícios apontados à IA na área da saúde. Pode partilhar mais exemplos práticos?

Começando por aquilo que já existe, as vacinas e os medicamentos estão a ser desenvolvidos com o apoio e a ajuda da IA. A vacina para a Covid foi um exemplo de algo que demorava 8 a 10 anos, passou a demorar cerca de um ano ou menos, com a aceleração deste processo. Ao nível da prevenção, a utilização de modelos preditivos possibilita que um surto de gripe seja mais rapidamente antecipado, criando-se vacinas de modo mais célere e, diminuindo, deste modo, a pressão da população, nas unidades hospitalares e centros de saúde. Nas intervenções, a cirurgia robótica  já está em todo o lado e é usada para múltiplas operações. No campo do diagnóstico, na área da imagiologia, por exemplo, as máquinas de ressonância magnética e TAC quase todas já têm uma componente de IA e conseguem detetar um cancro, por exemplo, em estadios em que o olhar humano não o consegue fazer. Há tecnologias que conseguem detetar o cancro da mama cinco anos mais cedo, comparativamente com as tecnológicas convencionais.  

É um progresso enorme que pode salvar vidas e retirar pressão aos serviços de saúde…

O impacto disto para a vida das pessoas significa a diferença entre a vida e a morte, a diferença entre uma enfermidade que é tratável e uma enfermidade que já não é tratável, exigindo terapias combinadas, com mais custos, mas o mais relevante, com pior prognóstico e pior qualidade de vida para as pessoas. Com estas novas tecnologias, objetivamente, melhoramos a sobrevida, a qualidade de vida e o bem-estar das pessoas. E não é só nos países mais desenvolvidos. Em África, já existem máquinas portáteis para ecografias via IA, que permitem que os cuidadores de saúde façam um exame rápido a uma mulher grávida. Do resultado dependerá a decisão de empreender ou não uma longa viagem até à capital do seu país, diminuindo assim a mortalidade neonatal. Por seu turno, as sociedades europeias – confrontadas com o envelhecimento da população – também podem beneficiar da monitorização à distância dos cidadãos dependentes com recurso a robótica ou assistentes virtuais que ligam aos idosos para lhes lembrar que têm de tomar os medicamentos. Estes casos que descrevi não são futurologia, são tecnologias que já hoje são uma realidade.

No meio deste maravilhoso mundo novo, onde é que fica o trabalho dos médicos e dos enfermeiros, por exemplo?

O trabalho destes profissionais não será substituído, mas antes fortemente complementado. As máquinas possuem uma coisa que os seres humanos têm de forma limitada: tempo para lidar com as pessoas. Um médico dispõe, em média, 10 a 15 minutos para interagir com um doente, enquanto um assistente virtual pode estar a falar em permanência. Mas é preciso ressalvar que há cuidados a ter. Não se vai entregar um paciente com problemas de saúde mental a um assistente virtual, sem as devidas garantias de segurança daquela tecnologia. Sem confiança não iremos ver esta tecnologia a vingar.

Considera que existe um potencial de colaboração entre os humanos e a IA. Mas noutros domínios, podemos esperar a extinção de algumas funções com o crescimento da AI em todos os setores de forma transversal? 

Algumas tarefas vão, inevitavelmente, ser substituídas. A IA é particularmente competente em tudo o que exige ações padronizadas. Por exemplo, a deteção de fraude que é uma matéria intimamente ligada ao exercício da atividade dos contabilistas certificados. Estes sistemas vão permitir identificar desvios e fugas ao padrão, ajudando os seres humanos a sinalizar situações que, provavelmente, podiam passar à margem, simplesmente porque não é possível ter um tempo infinito para analisar toda a documentação. Para além disso, há um conjunto de tarefas administrativas burocráticas que também podem vir a ser realizadas por IA, levando à substituição de quem atualmente ocupa esses postos de trabalho.

O futuro passa pela requalificação dos trabalhadores e a uma nova abordagem aos métodos de ensino?

Os tempos que vivemos exigem que nos preparemos – em particular as gerações mais novas – para uma nova abordagem na formação base e na formação ao longo da vida, privilegiando a adaptação e o ajustamento para novas competências, maximizando o potencial da IA. Estou em crer que o maior impacto acontecerá no contexto das empresas e nos países que não se prepararem para esta inevitável transformação. Os modelos de negócio e de governança terão de se adaptar a esta nova era. A IA dá-nos a oportunidade para reimaginar os diferentes setores da sociedade, por completo. E os líderes do futuro serão os que vão ter o discernimento para reconfigurar o seu sistema à luz do potencial destas mudanças.

Essa reconfiguração também impacta, naturalmente, nos sistemas de saúde?

Também. Mas estou a falar mais além. Falo de uma reconfiguração mais ampla, em termos sociais. E é essa a obrigação que compete aos nossos governantes, aos nossos líderes e aos nossos gestores. No caso da saúde preocupa-me ver a utilização da tecnologia à base de IA para tornar determinados processos em curso mais eficientes. É sabido que o nosso sistema de saúde é insustentável e tem processos altamente ineficientes. Se vamos utilizar a IA para tornar os processos mais eficientes, corremos o risco de ser mais eficientes, mantendo a… ineficiência. Parece contraditório, mas é isto que acontecerá se não repensarmos urgentemente os sistemas. Caso contrário, as oportunidades proporcionadas pela IA serão desperdiçadas e os ganhos pontuais e limitados. No contexto da saúde é preciso responder à questão: como é que a tecnologia vai melhorar, efetivamente, a qualidade de vida, o bem-estar e os ganhos do cidadão individual e da comunidade? Singapura é, de momento, um caso à parte, já tendo transformado o seu sistema de saúde, orientando-o para a prevenção e reduzindo a carga da doença com o apoio da tecnologia.

Aquando do lançamento do seu livro, «Um caminho para a cura – Propostas para o sistema de saúde português», editado em 2020, disse que o ministério que tutela a área agia mais como se fosse o ministério da doença, quando devia ser, tal como o nome indica, o ministério da Saúde. O que fazer para corrigir este paradoxo?

Com uma população a envelhecer existe a preocupação de ter os sistemas de saúde reativos, mas que, na verdade, se limitam a tratar doenças. Deste modo, o que temos é um sistema de doença e não de saúde. Assim sendo, a tecnologia pode acrescentar pouco e não nos servirá. A estratégia não serve a tecnologia, a tecnologia é que deve servir uma estratégia. Se não operarmos a transformação necessária, o sistema, tal como está desenhado, que não dispõe de meios infinitos, atingirá um ponto de rutura. E a capacidade de resposta será cada vez menor: mais filas de espera e pior qualidade de serviço.

Com os serviços nacionais de saúde pressionados e alguns à beira do colapso, muito também devido ao aumento da esperança média de vida dos cidadãos, em que medida é que a IA pode transformar e reconfigurar os sistemas de saúde?

Tudo deve começar numa lógica de incentivos que é preciso inverter. Explico: atualmente, a maior parte do financiamento em saúde é feito para premiar a execução de processos. Quantas cirurgias são feitas, quantos exames complementares diagnóstico são feitos, quantas consultas são ministradas, etc. No fundo, estatísticas. Quando o que devemos medir é se as pessoas estão mais ou menos saudáveis, premiando em função dessa avaliação. Na prática, se premiarmos apenas os procedimentos, premiamos apenas os que mantêm as pessoas doentes e não os que as tornam saudáveis, quando o que devia ser feito era detetar doenças mais cedo ou por via de padrões de risco identificar pessoas que podem vir a desenvolver uma doença. Em resumo, a mortalidade evitável é enorme e a forma como o sistema está montado gera muito desperdício. De um modo geral, cerca de 20 por cento das despesas em saúde não se traduzem em qualquer melhoria na qualidade de vida das pessoas.  Este caminho não pode continuar. É preciso reimaginar o sistema, alinhando os incentivos com os ganhos em saúde. Ao mesmo tempo que colocar à disposição da IA os dados em saúde da população para que o potencial destas tecnologias possa ser maximizadas em termos de ganhos de saúde. Sem dados, a IA funcionará como um carro potente, mas sem gasolina.

O SNS ultrapassou, para muitos, as melhores expetativas em termos da sua capacidade de resposta durante o período mais agudo da pandemia, mas expôs fragilidades que já vinham do passado e que hoje estão completamente à vista de todos?

A pandemia expôs muitas fragilidades do país, não apenas no SNS, mas no setor social, de uma forma geral. Recordo que muitos lares eram completamente desconhecidos das autoridades até a pandemia se abater sobre o nosso país, com elevada mortalidade na população mais idosa. Pode dizer-se que foi uma externalidade positiva o facto de a pandemia ter reduzido o número de lares ilegais que operavam em Portugal de uma forma vergonhosa. No campo da saúde os profissionais aguentaram um sistema no limite dos limites, mas que teve o preço enorme que hoje estamos a pagar. Profissionais exaustos, desmotivados e alguns a abandonarem para o privado ou para o estrangeiro. Esta espécie de sentimento de esgotamento que acometeu o SNS, resultante de uma combinação de fatores, dificilmente se consegue ultrapassar sem mudanças profundas. A pandemia foi de tal maneira impactante e negativa que depois de ter terminado, politicamente, durante um período, deixou de se falar de saúde. E foi apenas há cinco anos. Mas morreram mais de 20 mil cidadãos portugueses e milhões à escala global. Isto é explicado pelo trauma que é causado só por voltar a abordar o tema quando seria este o momento ideal para refletir sobre as lições aprendidas sobre o que correu bem e o que falhou.

Teme que não estejamos preparados para novas emergências globais de saúde?

Os riscos estão ao virar da esquina. O mundo é cada vez mais globalizado e as pessoas viajam com maior frequência. O acesso à manipulação genética é mais fácil, as ameaças do bioterrorismo existem e o risco de novas ameaças biológicas, naturais ou artificiais, é de tal forma grande que Portugal, enquanto país, tem de estar melhor preparado. Ainda para mais numa altura em que a Europa está em guerra e há um claro assumir da aposta na segurança e defesa. O bioterrorismo e a preparação para as ameaças de saúde global deviam estar, igualmente, no topo das preocupações e prioridades dos governos. O investimento em defesa e a segurança de um país não pode passar apenas por drones e fragatas. As maiores ameaças poderão vir a ser de natureza biológica.


A necessidade de literacia, nas suas diversas dimensões, e também na área da saúde, é tema na ordem do dia. É um convicto defensor do paradigma da cidadania para a saúde. Neste domínio, somos menos participativos do que devíamos ser?

Todos nós, como cidadãos e seres humanos, fazemos parte de uma comunidade, que nos dá muito, mas perante a qual também temos responsabilidades.  Este conceito da cidadania para a saúde tem na base o que é o espírito cívico e a participação comunitária.  Nasci no Canadá e em adolescente quando vim para Portugal ficava chocado quando via, à porta de grandes apartamentos, a calçada portuguesa esburacada. Todos ficavam à espera que alguém viesse resolver. É preciso pensar diferente. E esta lógica também se aplica na saúde e na responsabilidade social que todos devemos ter.  Estou em crer que se todos fizermos a nossa parte, a vida torna-se mais fácil. Está provado que as sociedades em que a vivência comunitária e o voluntariado estão mais presentes, estas são historicamente mais resilientes perante as crises e apresentam melhores indicadores de saúde e até de felicidade. Este é o caminho da cidadania para o bem-estar que acredito deve ser seguido por todos.

Partilhou publicamente as suas experiências como médico voluntário no hospital de Cascais, durante a pandemia e na guerra da Ucrânia, no hospital de Lviv, no primeiro ano de guerra. De que forma é que essas experiências mudaram a sua forma de ver e encarar o mundo?

Os casos a que aludiu são na minha vertente enquanto médico, mas o voluntariado, sob diversas perspetivas, sempre fez parte da minha vida. No contexto da Covid-19, para além de médico, era simultaneamente, deputado à Assembleia da República, o que permitiu defender, na arena política, os interesses dos profissionais de saúde e dos cidadãos.  Num contexto de emergência como aquele que atravessávamos, foi uma experiência de enorme aprendizagem a que tive no hospital de Cascais. Mais tarde, durante o primeiro verão da guerra da Ucrânia, em 2022, tive oportunidade de fazer serviço de voluntariado no hospital regional de Lviv e iniciar uma campanha de angariação de fundos, cujas receitas reverteram para essa unidade hospitalar que estava completamente sobrelotada. Foi uma experiência completamente nova, porque nunca tinha trabalhado num contexto de conflito armado. Lviv, uma cidade no oeste da Ucrânia, com cerca de 1 milhão de habitantes, tinha naquela altura o dobro de pessoas, porque muitas mulheres e crianças em êxodo da linha da frente, resguardaram-se naquela localidade, menos afetada pelo conflito. 

Lidou diretamente com os feridos de guerra?

Em Lviv trabalhei fundamentalmente nos serviços de urgência, cardiologia e neonatal. É preciso não esquecer que, à margem das vítimas de guerra, há uma realidade hospitalar no sistema de saúde que não é interrompida: as pessoas continuam a ser diagnosticadas com cancro, a sofrer AVC, há partos para fazer, etc. Por isso, neste caso, o que assisti foi ao difícil balancear em dar repostas de saúde na linha da frente da guerra e, ao mesmo tempo, manter um sistema de saúde a funcionar num país em conflito. Ver de perto a resiliência daquele povo e a abnegação de muitos jovens médicos, enfermeiros e auxiliares, que não abandonaram o seu país, numa permanente luta pela liberdade, foi algo que me tocou.

Fruto do seu trabalho, contacta com muitos milhares de compatriotas que exercem as suas funções além-fronteiras. Como descreveria a nossa diáspora? Os portugueses são reconhecidos pelo seu mérito?  

Sou membro do Conselho da Diáspora Portuguesa desde fevereiro de 2024, para além disso, fruto do meu trabalho, viajo por todo o mundo e confirmo que, para além de serem pessoas muito bem-sucedidas em vários contextos, há um português em cada canto do mundo.  A distância da sua pátria reforça a saudade, mas o sentimento de nacionalidade e orgulho pela origem lusitana são inegáveis. Estima-se que sejam entre 5 e 6 milhões de portugueses que vivem na diáspora, o que é um ativo e um potencial enorme, que devia ser maximizado, para atrair investimento e conhecimento, em prol do interesse do país.  Acredito que essa diáspora é, em grande parte, responsável pelo sucesso de Portugal como íman de atração de talento e de investimento estrangeiro. 

Para concluir a nossa conversa, voltamos a falar de tecnologias de ponta, mas em especial para os leitores desta revista, que são maioritariamente contabilistas certificados. Como é que a IA pode contribuir para a realidade que se vive hoje na área da contabilidade? 

Da experiência, por via de necessidade profissional, que tenho em lidar com contabilistas, constato que não existe a disponibilidade total para me aconselharem enquanto cliente por estarem muito absorvidos com o trabalho repetitivo que têm em mãos. Há muitas componentes do trabalho que competem aos contabilistas, que pela sua natureza repetitiva, estes profissionais prefeririam não executar, libertando-os para outras funções, para as quais, na atualidade, não têm manifestamente tempo. O maior potencial da IA centra-se em tudo o que envolve análises padronizadas de informação e se pudermos libertar toda a parte das tarefas que hoje os CC desempenham, para, com apoio da IA, identificar desvios e abrindo espaço a mais tempo para a análise, certamente que com o seu olhar informado, o contabilista certificado será um conselheiro muito mais eficaz, com muito mais disponibilidade para ajudar o cliente na tomada de decisão.

Ou seja, vislumbra, para esta profissão, mais oportunidades do que ameaças no horizonte?

Numa perspetiva de futuro, recorrendo a modelos preditivos analíticos, a IA consegue definir estratégias de previsão que ajudarão estes profissionais a escolher diferentes caminhos de forma muito mais eficaz. Em suma, as tecnologias podem ajudar muito, mas num setor tão específico como é o da contabilidade, o olhar detalhado do profissional e que envolve o profundo conhecimento de alterações legislativa complexas, em constante mutação, conjugado com um conhecimento tão especializado, pode converter os contabilistas em profissionais muito mais eficazes, criando um potencial de negócio muito mais interessante. Isto permitirá que ganhem uma dimensão que nunca tiveram na vida dos negócios e no país. 


Entrevista Nuno Dias da Silva | Fotos Raquel Wise

Entrevista publicada na Revista Contabilista n.º 386 dezembro 2025


PERFIL

Ricardo Baptista Leite nasceu a 31 de maio de 1980, em Toronto (Canadá). Veio com a família para Portugal, com 11 anos. Formado em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas, da Nova Medical School (2004), iniciou a sua carreira hospitalar no Amadora-Sintra. Na vida académica foi docente universitário na Nova Medical School. Na política foi deputado à Assembleia da República, em quatro legislaturas, entre 2011 e 2024, em representação do PSD, vereador da Câmara Municipal de Sintra e vice-presidente e vereador na Câmara Municipal de Cascais. É fundador e presidente da UNITE, uma rede global de parlamentares focada na Saúde Global com mais de 300 membros em quase 100 países. É, desde 2023, CEO da Health AI, uma agência global para o uso responsável da IA na saúde, com sede em Genebra. Foi nomeado em outubro pelo governo britânico para a comissão de regulação da IA na saúde. Em 2024, foi nomeado pela Fundação Obama como «Obama Leader» e integra ainda o Council do World Health Summit.