Cláudia Joaquim – Cumpriu-se, a 1 de janeiro, os 40 anos de adesão formal de Portugal à União Europeia. Ao longo destas décadas estima-se que tenhamos recebido mais de 167 mil milhões em fundos europeus. Que país seria o nosso sem estas ajudas de Bruxelas?
Contabilista – Ninguém consegue imaginar como estaria Portugal ao nível do desenvolvimento territorial, económico e social sem o contributo dos fundos estruturais ao longo destes 40 anos. Esta foi uma escolha estratégica de desenvolvimento que mudou a nossa trajetória enquanto país. Os fundos europeus assumiram um papel central em toda a execução das medidas públicas em Portugal. Estes seis programas de execução foram um poderoso catalisador do investimento, traduzindo não só as prioridades europeias, mas também as prioridades nacionais.
Com uma escolha mais criteriosa de projetos e uma melhor taxa de execução de fundos, a aplicação das verbas podia ter sido melhor concretizada, com impactos superiores na modernização, inovação e competitividade?
Objetivamente, teria sido muito difícil conseguirmos afetar um tão avultado volume de recursos sem os fundos europeus. É natural que 40 anos depois surjam questões: o investimento, num nível inicial, muito centrado na rede de transportes e infraestruturas, nos primeiros anos, era fundamental? Porventura, alguns de nós acham que não deveria ter sido, porque hoje temos esses investimentos concretizados e usufruímos deles. Mas a verdade é que a limitação de infraestruturas era patente e um forte entrave ao desenvolvimento. Num momento posterior, a aposta foi mais centrada na competitividade, na inovação, no reforço do capital humano e também na coesão territorial. Há impactos visíveis e outros que são imateriais. Por exemplo, a evolução ao nível do capital humano reflete-se em vários indicadores: nas qualificações da população, na taxa de abandono escolar precoce e nos diplomados no ensino superior.
Fala em «perceção errada» e «mitos associados» quando o tema são os fundos europeus. Pode concretizar?
Os fundos europeus mudaram estruturalmente o país, mas quando me refiro a «mitos» pretendo abordar a avaliação a posteriori que por vezes é feita às medidas de políticas públicas, independentemente das fontes de financiamento ou das regras associadas, em que perdura sempre a ideia de que os fundos europeus podiam ter sido melhor utilizados ou que, enquanto país, não estaríamos tão diferentes sem estas ajudas estruturais.
A AD&C organizou, nos dois últimos anos, duas Mostras de Fundos Europeus, em Coimbra e no Porto, como forma de exibir os projetos e investimentos, bem como esclarecer dúvidas e erros na submissão de candidaturas. Estes eventos são uma forma de fazer uma certa pedagogia que tem faltado sobre esta matéria?
São um conjunto de iniciativas, que se desenrolam em simultâneo, abertas ao público em geral, a empresas, a particulares e entidades com interesse nesta temática. Estamos a falar de seminários, mesas redondas, apresentação de projetos, stands do próprio programa PT2030, onde estão beneficiários que apresentam os seus projetos, etc. Para além de ações de grande utilidade e que são muito participadas, como é o caso de esclarecimentos ao nível da contratação pública ou como preencher corretamente o formulário de uma candidatura. Em 2025, tivemos o primeiro Prémio Nacional dos Fundos Europeus, atribuído por categorias, seguindo, aliás, o feedback e o impacto muito positivo que nos foi transmitido pelos beneficiários portugueses relativamente aos Prémios “REGIOSTARS”, organizados e atribuídos pelos Comissão Europeia. Nesse sentido, procuramos dar visibilidade e premiar o mérito, de modo a estimular mais e melhores projetos. É da exibição dos bons exemplos, mostrando o que se faz de melhor, que percebemos que vão surgindo novas candidaturas. A Mostra de Fundos Europeus terá nova edição, em princípio em novembro, em Lisboa.
Estes fundos permitiram transformar ideias em resultados, nomeadamente em respostas sociais. Contudo, um Eurobarómetro recente dizia que metade dos portugueses desconhecem a existência de projetos cofinanciados pela União Europeia. É imperioso melhorar a literacia sobre fundos europeus, nomeadamente através das campanhas, para que o cidadão comum perceba que muitos dos equipamentos que usa ou frequenta foram concretizados com dinheiro de Bruxelas?
No âmbito da divulgação e conhecimento sobre os fundos europeus há várias vertentes e perspetivas que todas somadas se complementam. Cada um de nós enquanto cidadão deve ter a perceção clara que estamos a utilizar um equipamento ou uma infraestrutura que foi cofinanciada. Neste caso, a publicitação nos edifícios, nomeadamente através de uma placa, é obrigatória. O que por vezes pode acontecer é que não estamos muito atentos a esses pormenores e a placa possa passar despercebida. Todos os dias, muitos dos cidadãos, frequentam ou visitam centros de saúde, lares para idosos, centros de dia e creches que, só para dar alguns exemplos, são equipamentos sociais que resultam de cofinanciamento. Em suma, acredito que é da literacia e da capacitação que resultará o melhor conhecimento sobre os fundos europeus e que só deste modo nos trará uma melhor perceção do que é passível de ser financiado.
O ex-presidente do Tribunal de Contas, José Tavares, disse em entrevista a esta publicação que «onde há dinheiro, valores e património público existem riscos». Existe uma bala de prata para equilibrar a redução/simplificação da burocracia e o risco de fraude?
Equilibrar o modelo de gestão de controlo interno, o cumprimento das regras que resultam dos regulamentos europeus (não é só a legislação nacional que determina as regras e procedimentos) e a simplificação ou a desburocratização nem sempre são completamente compatíveis. É um equilíbrio difícil, que se procura melhorar todos os dias. Por vezes, existe alguma incompreensão sobre a complexidade dos processos. Mas a complexidade está, muitas vezes, associada a pista de auditoria, ao sistema de controlo e gestão interna que é definido, às regras da Comissão Europeia, etc. Mas há muitos avanços que é preciso registar. O plano anual de avisos no PT2030 tem como objetivo que o cidadão e as empresas possam preparar, atempadamente, as suas candidaturas. Ao nível do Balcão dos Fundos, estabelecemos diversos protocolos de interoperabilidade com diversos organismos na administração pública (casos da Segurança Social, a AT, o IRN, o INE e o IMPIC), precisamente para dispensarmos documentação redundante, que o Estado já tem em seu poder, no ato de formalização da candidatura. Também se procurou neste quadro comunitário que os formulários de candidatura pudessem ter um tronco comum, para evitar que o mesmo beneficiário quando apresentava uma candidatura, a diversos programas ou fundos, se tivesse que confrontar com formulários muito distintos entre si.
Em suma, há ainda um caminho que é preciso continuar a fazer e, ao mesmo tempo, procuramos retirar ensinamentos, em particular do trabalho que é desenvolvido na Linha dos Fundos. Trata-se de um serviço de apoio às candidaturas, criado em 2022, que começou com 21 300 contactos e que, ao longo dos anos, tem registado um aumento gradual, com os acessos a dispararem nestes primeiros 40 dias de 2026. Aproveito para referir que na Linha dos Fundos já temos o recurso a inteligência artificial (IA).
A IA já está em força na análise às candidaturas aos fundos europeus e, para além disso, existe o assistente virtual «IVO» e, em breve, surgirá a «EVA». Estas ferramentas permitirão acelerar a execução dos fundos estruturais?
O «IVO» é um assistente virtual da Linha dos Fundos, protagonizando um papel na comunicação direta com o beneficiário. Está, como qualquer mecanismo de IA, em aprendizagem constante, em função da informação nova que vai surgindo, em particular no âmbito dos avisos. Por seu turno, a «EVA», que ainda se encontra em fase de testes, tem um pressuposto de disponibilização de um conjunto de procedimentos ao nível das autoridades de gestão, facilitando, por exemplo, a análise de candidaturas. Há critérios de seleção de candidaturas que são tendencialmente transversais ou utilizados na generalidade dos avisos, o que acaba por agilizar todo este processo de análise. Pretendemos, num futuro muito próximo, que os projetos de IA sejam cada vez mais integrados, considerando a articulação com várias entidades, para que possamos potenciar e tirar partido deste desenvolvimento tecnológico.