Entrevista
Entrevista a Isabel Ucha, CEO da Euronext Lisbon
17 Agosto 2026
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«A informação financeira e a não financeira influenciam o valor de uma empresa em mercado e as decisões dos investidores»


A aplicação da poupança em investimento deve assentar no que cria valor na economia. E são as empresas os ativos que geram rendimento. O argumento é defendido por Isabel Ucha que refere ainda que «esta geração é muito mais ativa na tomada de decisões sobre a aplicação das suas poupanças. A CEO da Euronext Lisbon sustenta ainda que «a bolsa não é um jogo», mas sim uma «oportunidade de investir no crescimento das empresas e da economia.»

Contabilista – Lidera a empresa que gere a Bolsa de Valores de Lisboa e que se juntou ao ecossistema Euronext, a maior bolsa europeia, em 2002. Para começar, fale-nos um pouco da Euronext, um dos principais motores de financiamento e pilar da economia europeia…

Isabel Ucha – O Grupo Euronext foi constituído no ano 2000, pelos líderes das bolsas de Paris, Amsterdão e Bruxelas, que defendiam mercados de capitais integrados e uniformizados na Europa. Mais tarde, em 2002, juntou-se Lisboa, e só depois se associaram a Irlanda, a Noruega, a Itália e, mais recentemente, a Grécia. Esta é a maior infraestrutura de mercado na Europa, que integra negociação de ações, obrigações e alguns derivados, alargada a outros modelos de negociação, que inclui commodities, contratos de energia, etc. A Euronext está presente em 22 países, integramos as bolsas de oito países, tem cerca de 1 900 empresas cotadas que, por seu turno, representam mais de sete triliões de capitalização bolsista. Para além disso, temos 400 intermediários financeiros e 6 000 investidores institucionais que regularmente investem nos instrumentos cotados na nossa plataforma. Todos os dias se negoceiam, em média, 14 mil milhões de euros em ações. Esta é também a maior bolsa a escala mundial de listing de obrigações e a maior plataforma de listing e negociação de ETF’s na Europa.

A Euronext Lisbon tem procurado aproximar o mercado de capitais do tecido empresarial nacional. Qual é hoje o maior desafio para convencer uma empresa a financiar-se através da bolsa em vez de recorrer apenas ao crédito bancário? 

Ao longo dos últimos 20 anos tem-se observado, e não apenas em Portugal, uma evolução nos mercados de capitais onde têm surgido formas de financiamento alternativas para as empresas. Com o agravamento das condições de regulação e das obrigações das empresas cotadas no mercado, devido às crises, as empresas passaram a enveredar por opções de financiamento de diversa natureza e o mercado de capitais não tem sido das opções mais procuradas, pelo menos na Europa continental, sejam pelas empresas de dimensão pequena, média ou até pelas de maior porte. Os relatórios Draghi e Letta reconheceram, de forma clara, que a menor utilização do mercado de capitais pelas empresas europeias tem sido um dos fatores de desequilíbrio em termos de competitividade das empresas do continente, face aos Estados Unidos e agora também em relação à China, que tem um mercado de capitais extraordinariamente dinâmico e pujante.

Isso deve-se também a alguma fragilidade demonstrada pelas empresas do «velho» continente?

A participação de uma empresa em mercados de capitais exige um ecossistema de suporte que obriga a que existam intermediários financeiros e banca de investimentos que as apoiem, um quadro regulatório adaptado à respetiva dimensão etc.  Isto para além de uma política financeira mais genérica e global que, de alguma forma, começa a emergir após a publicação dos relatórios Draghi e Letta. Estes mercados de capitais e esta soluções de financiamento estão a merecer uma atenção cada vez maior por parte das instituições europeias e dos próprios Estados nacionais.  O que sucede é que persiste o mito que uma empresa ou um fundador se for para o mercado de capitais vai perder o controlo do governo e a estratégia da empresa.

E não é assim?

É exatamente o contrário. As soluções dos mercados de capitais normalmente permitem financiar, simultaneamente, empresas com grande crescimento e necessidades de capital, mantendo o controlo dos fundadores ou das famílias. Esta situação nem sempre é completamente bem percebida. É por esse motivo que a Euronext tem um programa denominado “IPOready”, que serve, precisamente, para esclarecer e clarificar situações como as que acabei de descrever. Este curso específico, que não tem paralelo em nenhuma entidade formativa ou universidade do país, decorre há vários anos, de janeiro a junho, e consta de 8/9 sessões. É uma iniciativa gratuita direcionada para as empresas, em que se responde de “A a Z” a várias empresas, a começar pela questão de partida: por que é deve abrir o seu capital ou fazer uma emissão de obrigações? Para tal, contamos com o contributo dos nossos parceiros, como são os bancos de investimento, empresas de comunicação, empresas de auditoria/consultoria e escritórios de advogados. Em setembro, começaremos a campanha de angariação de empresas para o programa “IPOready”, que arrancará no início de 2027.

A carga burocrática e os custos de admissão também são abordados nesta formação?

Sim. Os requisitos legais e jurídicos que devem ser cumpridos pelas empresas não são esquecidos, em paralelo com o relacionamento a ter com os investidores e com a própria gestão financeira. Igualmente importante, é a história que as empresas devem apresentar aos investidores, bem como a visão estratégica que perfilham. isto é especialmente relevante na medida em que os investidores “compram” uma visão e uma perspetiva de futuro. A banca de investimento tem enorme experiência neste domínio e é ela que vai aproximar e ligar a empresa aos investidores. Reconhecendo a importância e o crescimento dos mercados de financiamento privados e admitindo que a maioria das empresas não tem interesse ou vocação no mercado de capitais, temos vindo a desenvolver uma oferta relacionada com o capital privado. Por isso, criámos o programa “ELITE”, em 2023.

O que distingue o programa “IPOready” do “ELITE”?

Comparativamente com o “IPOready”, este é mais completo e diversificado. É aquilo a que chamamos um acelerador de negócios, privilegiando uma componente mais académica, fruto da parceria que temos com a Universidade Nova, em Lisboa, e a Universidade Católica, no Porto. Trata-se de uma vertente muito prática, em que destacamos a componente de coach individual e também o network internacional, que se consubstancia em webinars e workshops em vários países da Europa. Julgamos que este é o caminho de preparação para uma maturidade estratégica, de governance, sustentabilidade e de modalidades de financiamento alternativa, particularmente destinado às empresas mais pequenas. Neste momento, a rede europeia da “ELITE” supera as duas mil empresas. Portugal representa ainda uma pequena fração desse universo, mas ambicionamos crescer.


Ainda há um esforço de sensibilização a fazer no sentido de desmistificar a ideia de que o mercado de capitais/bolsa é um jogo, dominado por especuladores? Admite que essa ideia feita afasta investidores individuais, por exemplo?

A bolsa não é um jogo, é uma oportunidade de investir no crescimento das empresas e da economia. A volatilidade diária atrai cidadãos que entram numa lógica de comprar de manhã e vender à tarde, em busca de um pequeno ganho imediato. Há estudos científicos que apontam que não é possível obter ganhos sustentados, até porque os mercados têm um grau de eficiência significativo. O que acontece é que a esmagadora maioria dos investidores não tem nem o interesse, nem o conhecimento, nem a vocação para estarem ativamente no mercado. A aplicação da poupança em investimento deve assentar no que cria valor na economia. Investimos à procura de um retorno e esse retorno só vem se investirmos em ativos que gerem rendimento. E o que gera rendimento, sustentado no médio/longo prazo na economia, são as empresas. Não há outra forma de gerar rendimento. Para ter uma rentabilidade adequada e interessante das nossas poupanças devemos investir em empresas, seja nas cotadas ou nas não cotadas. Mas também temos outros instrumentos que aconselham a uma diversificação dos investimentos. Há uma tendência que se desenha de os cidadãos individuais escolherem o seu portfólio e a carteira de investimentos. 

De que dados dispõem que apontam nesse sentido?

Há cerca de 10 anos tínhamos uma percentagem de negociação das empresas listadas através da Euronext em cerca de 8 a 9 por cento, e agora estamos a roçar os 20 por cento da quota do chamado investidor individual ou investidor de retalho. Isto não é uma tendência só portuguesa, mas de facto, no universo Euronext o investidor individual é o que tem mais peso na negociação. O que contradiz essa ideia feita de que os portugueses são avessos ao risco. Pelo contrário. As novas gerações, por serem mais informadas e procurarem ser donas da sua vida financeira, indicam isso mesmo. Creio que este foi um caminho iniciado durante a pandemia, em que as pessoas por estarem confinadas tiveram mais tempo e disponibilidade para se debruçarem sobre estas temáticas.

Esta nova geração personifica um novo paradigma em termos de cultura de investimento?

Claramente. Esta geração é muito mais ativa na tomada de decisões sobre a aplicação das suas poupanças. Contudo, é preciso sublinhar que há mais informação, mas ao mesmo tempo, também há mais riscos devido ao manancial de informação existente, alguma de natureza fraudulenta e outra que está longe de ter um cariz científico. Na internet, nas redes sociais ou noutras plataformas relacionadas são veiculadas informações de pessoas que não têm conhecimentos ou não abordam esta temática com o rigor necessário. Aproveito a oportunidade para deixar uma recomendação aos investidores: procurem informação de fontes fidedignas e diretas, como é o caso dos websites das empresas.

É sabido que os portugueses são uns grandes adeptos dos certificados de aforro. Defende estratégias de investimento diversificadas, em vez de opção única nos depósitos ou contas à ordem. Os investidores devem habituar-se a colocar os ovos em vários cestos?

Sim, defendo que os investidores devem fazer aplicações em ações e obrigações das empresas. A estratégia de investimento da nossa vida deve começar por poupar desde cedo, visto que o aforro é um hábito que nos pode permitir ganhar uma almofada para fazer face, designadamente, a riscos, previstos ou imprevistos, seja por motivo de doença ou até por motivos demográficos.

Que princípios devem reger uma lógica assente na poupança?

Devemos investir a poupança da melhor maneira possível: em primeiro lugar, as empresas devem ser uma vertente fundamental deste investimento. Depois o portfólio deve evoluir com o avançar da idade. Quanto mais jovens forem, as pessoas devem ter mais ações e títulos de capital e menos obrigações, depósitos e instrumentos de divida. À medida que as pessoas se aproximarem da reforma, o portfólio deve ser reequilibrado para se ter mais dívida e menos instrumentos de capital.

Continuam a escassear medidas fiscais para incentivar a poupança através do investimento?

Os já atrás mencionados relatórios Draghi e Letta, e as tomadas de posição da Comissão Europeia, do Fundo Monetário Internacional e do Banco Central Europeu têm, de alguma maneira influenciado a política financeira do governo, com o aumento da relevância e do dinamismo do mercado de capitais e a necessidade de tomar medidas à escala europeia. Gostaria de salientar, em especial, duas recomendações feitas no último ano pela UE, sob a égide da comissária portuguesa, Maria Luís Albuquerque: as contas poupança investimento, uma medida com um impacto significativo fruto do regime fiscal simplificado e competitivo; e o modelo de três pilares na Segurança Social, que cria massa crítica para investir em empresas cotadas no mercado. Estas duas medidas geram uma maior cultura de poupança e uma massa crítica de capital. A título de exemplo, a Irlanda foi primeiro país a adotar as contas poupança investimento e no próximo mês de setembro já farão parte do seu Orçamento para 2027. Destacaria ainda o market integration and supervision package que visa promover uma maior integração das infraestruturas do mercado de capitais na Europa e que pode ajudar a simplificar os requisitos de admissão e supervisão das empresas. O “EU Listing Act”, recentemente transposto por Portugal, determina que existirá informação específica e simplificada para empresas abaixo de 12 milhões de euros de operação. Esta medida é um passo adicional para ajudar as empresas mais pequenas no acesso ao mercado de capitais. Acredito que a simplificação legislativa, regulatória e de supervisão, em várias dimensões, abrirá um novo caminho a empresas e investidores.


Os critérios ESG e a sustentabilidade continuam a ganhar relevância e são um dos produtos estrela da bolsa. Até que ponto uma boa estratégia de sustentabilidade pode facilitar o acesso das empresas ao financiamento e qual o papel que os mercados de capitais em colocar no mercado produtos financeiros com o selo de sustentabilidade?

Considero que é um papel absolutamente fundamental e crítico no caminho da transição energética. Nos últimos anos as empresas de energia cotadas (e temos cinco) têm feito sistematicamente financiamentos, quer por emissão de obrigações, quer por aumentos de capital, como foi o caso da EDP, EDP Renováveis e Greenvolt, com o foco no investimento da infraestrutura renovável. Nos últimos cinco anos foram mais de 15 mil milhões de euros – um terço de capital e dois terços de dívida. Com a particularidade de as emissões e as obrigações terem sido esmagadoramente green bonds. Graças a essa estratégia de investimento, Portugal é hoje um país onde a rede elétrica já tem cerca de 70 por cento de fornecimento de energia renovável. O tema sustentabilidade começou a entrar nos mercados capitais há cerca de uma década. Começou por ser um tema de gestão de risco, que com o passar do tempo evoluiu no sentido de apoiar as melhores práticas, seja na transição energética, na redução do carbono, na poupança hídrica, no tratamento de resíduos, etc. A sofisticação e a especialização das variáveis e das temáticas da sustentabilidade explicam que hoje no mercado de capitais existam mais de 400 índices de empresas ESG e emissões de obrigações com uma panóplia de items. As emissões de obrigações sustentáveis continuam a crescer. Trata-se de um sinal inequívoco de que este é um tema que vem ganhando escala, dimensão e relevância, ao mesmo tempo que os investidores adquirem apetência e sensibilidade. É uma vertente de mercado incontornável, sendo o tema ESG transversal a todos os investidores em matéria de estratégia de investimento.

Num contexto marcado pela transformação digital e a inteligência artificial, que impacto prevê para os mercados financeiros e para a forma como os investidores avaliam as empresas?

O caminho está a começar e ainda não é possível antever o real impacto transformacional destas tecnologias enquanto instrumento de apoio às empresas, às instituições e às pessoas individualmente. Na Euronext, em termos da adoção da IA, temos formado e transmitido orientações aos nossos colaboradores, nomeadamente na forma como usar plataformas mantendo a supervisão humana. Estamos a introduzir estas tecnologias na programação de plataformas e automatização de processos, tendo em vista respostas mais robustas e ganhos de eficiência. Para já, ainda estamos numa etapa de avaliação e de interação com os investidores. Perspetivando o futuro, mais a médio/longo prazo, é preciso antecipar de que forma estas ferramentas 2.0 podem vir a alterar o modelo de negócio do mercado de capitais. Igualmente relevante é a dimensão das plataformas dos modelos de cibersegurança, no sentido de identificar vulnerabilidades para precaver eventuais ataques. É uma área, como não podia deixar de ser, a que o setor financeiro está muito atento e vigilante.

Apesar das incertezas, pode-se garantir que está em curso a transformação do ecossistema de investimento nos mercados de capitais?

As decisões de investimento assentam essencialmente em informação, de diversas naturezas. As ferramentas de IA têm um potencial enorme para recolher informação abundante e proceder ao tratamento dessa mesma informação. Isto terá impacto no modo como funcionamos e como os investidores trabalham. Uma das áreas de negócio que mais cresceu no Grupo Euronext não foi só a negociação por parte dos investidores individuais, foi também a compra de dados, até porque uma das dimensões da nossa atividade é vender os dados da negociação, das emissões, do trading, dos preços, da procura, etc., às agências de informação e comunicação, casos da Bloomberg, Reuters e outros intermediários financeiros internacionais. Por falar, em comunicação, a IA já consegue produzir podcasts próprios, fazendo a síntese de informação sobre um tema específico do mercado de capitais.

Tradicionalmente, o contabilista certificado era visto como alguém focado no cumprimento das obrigações legais e fiscais. Hoje, assume-se, em definitivo, como um verdadeiro parceiro estratégico das empresas e até dos próprios investidores? 

Certamente. A função financeira vai continuar a ser absolutamente crítica, por se tratar da fonte original de informação das empresas. Vai ser essa informação de gestão – financeira e não financeira – fiável, rigorosa, relevante e completa, sobre a saúde financeira da empresa, que continuará a influenciar o valor de uma empresa em mercado e as próprias tomadas de decisão dos investidores.

A área financeira de uma empresa continuará a ser crucial e insubstituível?

À margem de tarefas e verificações automatizadas, a função financeira continuará a ser determinante para acompanhar e prever, ao detalhe, a evolução do negócio. Nesse sentido, em particular para as pequenas e médias empresas, o papel do contabilista não deve ser reduzido ao mero registo da produção das contas e ao apuramento e pagamento dos impostos. A função financeira assume uma dimensão estratégica de crucial importância. É dela que vai depender o plano de negócios e a escolha das estruturas de financiamento, tendo em vista a sua expansão e crescimento. Nesse sentido, a função do CFO e da equipa que o acompanha é absolutamente estratégica para que, em cada momento, a empresa esteja organizacionalmente preparada, a vários níveis, para poder recorrer a essas diferentes formas de financiamento e a implicação estratégica para o seu futuro. Nas empresas cotadas estes profissionais têm ainda uma relação muito estreita com os investidores e é preciso dialogar e transmitir, a par e passo, a evolução do negócio. 


PERFIL

Isabel Ucha é presidente do conselho de administração da Euronext Lisbon, a entidade gestora da bolsa de valores em Portugal, e administradora da Euronext N.V., um grupo multinacional que integra várias bolsas europeias. Licenciada em Economia pela Universidade Católica, possui um mestrado em Economia pela Universidade Nova e um master’s in Finance pela London Business School. Ao longo da sua carreira, foi assessora para os assuntos económicos do primeiro-ministro durante quatro anos, liderou o Núcleo de Emissões e Mercados da Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP), desempenhou funções na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e foi sócia executiva de uma empresa de consultoria durante cerca de sete anos. Paralelamente, tem lecionado na Universidade Católica, onde ensina várias disciplinas de economia e finanças.


Texto Nuno Dias da Silva  | Fotos Bruno Cardoso - Entrevista publicada na Revista Contabilista n.º 315