Contabilista – Lidera a empresa que gere a Bolsa de Valores de Lisboa e que se juntou ao ecossistema Euronext, a maior bolsa europeia, em 2002. Para começar, fale-nos um pouco da Euronext, um dos principais motores de financiamento e pilar da economia europeia…
Isabel Ucha – O Grupo Euronext foi constituído no ano 2000, pelos líderes das bolsas de Paris, Amsterdão e Bruxelas, que defendiam mercados de capitais integrados e uniformizados na Europa. Mais tarde, em 2002, juntou-se Lisboa, e só depois se associaram a Irlanda, a Noruega, a Itália e, mais recentemente, a Grécia. Esta é a maior infraestrutura de mercado na Europa, que integra negociação de ações, obrigações e alguns derivados, alargada a outros modelos de negociação, que inclui commodities, contratos de energia, etc. A Euronext está presente em 22 países, integramos as bolsas de oito países, tem cerca de 1 900 empresas cotadas que, por seu turno, representam mais de sete triliões de capitalização bolsista. Para além disso, temos 400 intermediários financeiros e 6 000 investidores institucionais que regularmente investem nos instrumentos cotados na nossa plataforma. Todos os dias se negoceiam, em média, 14 mil milhões de euros em ações. Esta é também a maior bolsa a escala mundial de listing de obrigações e a maior plataforma de listing e negociação de ETF’s na Europa.
A Euronext Lisbon tem procurado aproximar o mercado de capitais do tecido empresarial nacional. Qual é hoje o maior desafio para convencer uma empresa a financiar-se através da bolsa em vez de recorrer apenas ao crédito bancário?
Ao longo dos últimos 20 anos tem-se observado, e não apenas em Portugal, uma evolução nos mercados de capitais onde têm surgido formas de financiamento alternativas para as empresas. Com o agravamento das condições de regulação e das obrigações das empresas cotadas no mercado, devido às crises, as empresas passaram a enveredar por opções de financiamento de diversa natureza e o mercado de capitais não tem sido das opções mais procuradas, pelo menos na Europa continental, sejam pelas empresas de dimensão pequena, média ou até pelas de maior porte. Os relatórios Draghi e Letta reconheceram, de forma clara, que a menor utilização do mercado de capitais pelas empresas europeias tem sido um dos fatores de desequilíbrio em termos de competitividade das empresas do continente, face aos Estados Unidos e agora também em relação à China, que tem um mercado de capitais extraordinariamente dinâmico e pujante.
Isso deve-se também a alguma fragilidade demonstrada pelas empresas do «velho» continente?
A participação de uma empresa em mercados de capitais exige um ecossistema de suporte que obriga a que existam intermediários financeiros e banca de investimentos que as apoiem, um quadro regulatório adaptado à respetiva dimensão etc. Isto para além de uma política financeira mais genérica e global que, de alguma forma, começa a emergir após a publicação dos relatórios Draghi e Letta. Estes mercados de capitais e esta soluções de financiamento estão a merecer uma atenção cada vez maior por parte das instituições europeias e dos próprios Estados nacionais. O que sucede é que persiste o mito que uma empresa ou um fundador se for para o mercado de capitais vai perder o controlo do governo e a estratégia da empresa.
E não é assim?
É exatamente o contrário. As soluções dos mercados de capitais normalmente permitem financiar, simultaneamente, empresas com grande crescimento e necessidades de capital, mantendo o controlo dos fundadores ou das famílias. Esta situação nem sempre é completamente bem percebida. É por esse motivo que a Euronext tem um programa denominado “IPOready”, que serve, precisamente, para esclarecer e clarificar situações como as que acabei de descrever. Este curso específico, que não tem paralelo em nenhuma entidade formativa ou universidade do país, decorre há vários anos, de janeiro a junho, e consta de 8/9 sessões. É uma iniciativa gratuita direcionada para as empresas, em que se responde de “A a Z” a várias empresas, a começar pela questão de partida: por que é deve abrir o seu capital ou fazer uma emissão de obrigações? Para tal, contamos com o contributo dos nossos parceiros, como são os bancos de investimento, empresas de comunicação, empresas de auditoria/consultoria e escritórios de advogados. Em setembro, começaremos a campanha de angariação de empresas para o programa “IPOready”, que arrancará no início de 2027.
A carga burocrática e os custos de admissão também são abordados nesta formação?
Sim. Os requisitos legais e jurídicos que devem ser cumpridos pelas empresas não são esquecidos, em paralelo com o relacionamento a ter com os investidores e com a própria gestão financeira. Igualmente importante, é a história que as empresas devem apresentar aos investidores, bem como a visão estratégica que perfilham. isto é especialmente relevante na medida em que os investidores “compram” uma visão e uma perspetiva de futuro. A banca de investimento tem enorme experiência neste domínio e é ela que vai aproximar e ligar a empresa aos investidores. Reconhecendo a importância e o crescimento dos mercados de financiamento privados e admitindo que a maioria das empresas não tem interesse ou vocação no mercado de capitais, temos vindo a desenvolver uma oferta relacionada com o capital privado. Por isso, criámos o programa “ELITE”, em 2023.
O que distingue o programa “IPOready” do “ELITE”?
Comparativamente com o “IPOready”, este é mais completo e diversificado. É aquilo a que chamamos um acelerador de negócios, privilegiando uma componente mais académica, fruto da parceria que temos com a Universidade Nova, em Lisboa, e a Universidade Católica, no Porto. Trata-se de uma vertente muito prática, em que destacamos a componente de coach individual e também o network internacional, que se consubstancia em webinars e workshops em vários países da Europa. Julgamos que este é o caminho de preparação para uma maturidade estratégica, de governance, sustentabilidade e de modalidades de financiamento alternativa, particularmente destinado às empresas mais pequenas. Neste momento, a rede europeia da “ELITE” supera as duas mil empresas. Portugal representa ainda uma pequena fração desse universo, mas ambicionamos crescer.