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8.º Congresso - 23 de setembro de 2026 (dia 2)
23 Setembro 2026
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A animada e inusitada interação entre a bastonária Paula Franco e o «Afonso», o robô humanoide, para além da intervenção do ministro adjunto e da reforma do Estado, Gonçalo Matias, dominaram a manhã de trabalhos.


«Simplificar com inteligência e qualidade»
Intervenção da bastonária, Paula Franco, na sessão de abertura

A abertura do segundo dia do 8.º Congresso começou de forma inusitada. «Afonso» tomou-lhe o gosto, e voltou a subir ao palco, depois de o ter feito na véspera, antes do jantar de gala, desta vez na companhia da bastonária que entabulou com o robô humanoide um animado diálogo. «Será que o “Afonso nos vai substituir?», foi a questão lançada por Paula Franco e que dinamizou esta intervenção durante cerca de 30 minutos. «Dependerá de nós. Usaremos a tecnologia para fazer melhorar, melhorar os tempos de trabalho e transformar a nossa profissão, utilizando melhor todos os dados. Em suma, andamos de mão dada com a tecnologia, mas não podemos deixar que ela nos controle», respondeu a bastonária.

O reposicionamento do profissional

 «Assumir a responsabilidade pelas decisões humanas é algo que não consigo fazer», admitiu o robô, trajado com a gravata oficial usada pelo staff. «As máquinas têm limites. O juízo profissional, o valor da confiança e a interpretação dos dados obtidos pelas máquinas é algo que só os profissionais conseguem fazer e o que os torna os verdadeiros representantes do futuro», sustentou a máxima responsável da OCC. Desenvolvendo o conceito do «contabilista 3.0», que dá o mote a este congresso, a bastonária salientou que este modelo «permite trazer a tecnologia para as nossas vidas, mas nunca abdicando do juízo profissional e da assunção de responsabilidades.» Reposicionar o contabilista certificado e colocá-lo ao serviço da contabilidade é um objetivo que, segundo Paula Franco, possibilitará «prestar contas até março», até porque, adiantou, «informação atempada é informação útil, mas se não for atempada, deixa de ser útil.» Para concluir, a bastonária mostrou-se esperançada que o princípio do “só uma vez”, expresso na proposta de aprovação legislativa do governo que se encontra já na Assembleia da República, será um «sonho tornado realidade. «Simplificar com inteligência e qualidade» e a centralização dos dados como caminho para poupar horas e horas de trabalho para os profissionais», foram outras traves mestras elencadas pela bastonária.

 

Um «exército empenhado» na “guerra” contra a burocracia
Gonçalo Matias, ministro adjunto e da reforma do Estado, elogiou os contabilistas certificados

«A carteira digital da empresa – um novo motor para a economia» era o mote pré-anunciado da intervenção do ministro adjunto e da reforma do Estado, mas diga-se, em abono da verdade, a sua intervenção foi muito para além dessa temática. Gonçalo Matias começou por endereçar palavras de felicitação à bastonária «pela preocupação manifestada no interesse da profissão, sem esquecer o interesse público e o bem comum.» Seguidamente, o governante centrou a sua intervenção nos objetivos da reforma do Estado: Simplificar a vida dos cidadãos e das empresas, colocando ambos no centro da ação do Estado.» Como pilares da reforma do Estado, Gonçalo Matias identificou a simplificação de procedimentos, das leis e a forma como o Estado se relaciona com as pessoas e as empresas. Só após ser feita a «reengenharia dos processos» é que se entrará na etapa seguinte, a digitalização. Confiança e responsabilidade são, para o ministro, «valores que têm de caminhar lado a lado». E explicou, de forma detalhada: «Sem confiança nenhum Estado se constrói. E é preciso que se diga que durante anos não confiámos e desconfiámos uns dos outros.» 

Interoperabilidade, «uma das maiores revoluções em décadas»

Na definida pelo governo como a «guerra contra a burocracia», Gonçalo Matias referiu contar com o apoio de um «exército empenhado» composto pelos profissionais da contabilidade e da fiscalidade. Socorrendo-se de estimativas avançadas pela União Europeia, o ministro revelou que se cifram em cerca de 30 mil milhões de euros os custos de contexto, perda de recursos e potencial de crescimento económico para as empresas provocados pela burocracia. Não abandonando a temática do «choque de simplificação legislativa» que o executivo está a levar a cabo, o governante referiu que «só num ano alterámos cinco códigos». A saber, o regime da construção, a nova lei do Tribunal de Contas, o novo código dos contratos públicos e a reforma da justiça administrativa e fiscal. A lei da interoperabilidade entrou no Parlamento há poucos dias e, a ser aprovada no hemiciclo, obrigará todas as entidades da administração pública a integrar todos os dados acessíveis, que passarão a circular entre as entidades. No final deste processo serão mais de cinco mil entidades abrangidas. «O princípio de “uma só vez” está previsto na lei há 12 anos, só que não é cumprido, sobretudo, por razões jurídicas e de vontade política e pelos silos construídos na administração pública e que inviabilizaram o diálogo. Esta será uma das maiores revoluções a que assistimos nas últimas décadas», afiançou.  Para concluir, uma informação em primeira mão: está em curso um processo de aprovação sobre a simplificação e modernização dos atos societários. «Portugal vai liderar este processo, da mesma forma que está a liderar a carteira digital das empresas. E estou em crer que este último projeto vai ser impulsionando em vários países da Europa dinamizado pelo nosso país.» Em meados de outubro, Gonçalo Matias viaja até Berlim para apresentar a Carteira Digital das Empresas “made in Portugal” ao seu congénere alemão.
 

 


«Profissionais que dominam a tecnologia, sem ser dominados por ela»
Intervenção de Aécio Dantas Júnior, presidente da UCALP

A sessão de abertura prosseguiu com a intervenção de Aécio Dantas Júnior. O brasileiro, que preside à União dos Contabilistas e Auditores de Língua Portuguesa (UCALP), também recorreu a uma pergunta para a abertura do seu discurso: «Em quem vamos confiar para interpretar o que os dados significam para a tomada de decisões responsáveis?». A resposta recaiu nos profissionais e as justificações foram céleres. «A Inteligência Artificial amplia capacidades e a automação redefine processos. Mas quanto maior for a capacidade tecnológica, mais importante será o discernimento humano. Precisamos de profissionais que dominem a tecnologia, sem ser dominados por ela», sustentou o “contador” que já presidiu ao Conselho Federal de Contabilidade (CFC) do Brasil e que lidera a UCALP desde 2025. «Os países de língua oficial portuguesa estão unidos pelo mesmo idioma, mas podemos e devemos estar ainda mais próximos através de um espírito de cooperação e aprendendo uns com os outros. A geografia separa estes profissionais, mas partilhamos muito dos desafios atuais», referiu. Para as organizações profissionais espalhadas pelo mundo, com especial enfoque para o universo lusófono, Dantas Júnior terminou declarando que «preparar e qualificar o contabilista certificado não é uma agenda da profissão, mas sim uma agenda de desenvolvimento.»


«A confiança e a reputação demoram muito tempo a construir, mas podem ser derrubadas num ápice»
Jean Buoquot, presidente da IFAC

Quase a terminar os dois anos de mandato na liderança da International Federation of Accountants (IFAC), Jean Bouquot começou por elogiar o trabalho desenvolvido pela OCC, que há quase 15 anos integra a maior organização contabilística mundial, em vários projetos, nomeadamente a abertura do acesso à profissão. «Continuem o vosso excelente trabalho em prol do interesse público», afirmou o francês que lidera esta instituição que se assume como a voz global da profissão, que representa 188 organizações contabilísticas profissionais em mais de 143 jurisdições. Jean Bouquot considerou que a sustentabilidade e a tecnologia são dimensões que vão definir o futuro da profissão e, uma vez mais, salientou as iniciativas promovidas pela OCC, ao nível do «contabilista 3.0», nomeadamente na forma como as empresas tomam decisões e no modo como está em transformação a forma como a sociedade nos perceciona.

Riscos que a IA pode amplificar

O presidente da IFAC identificou vantagens na adoção das novas tecnologias, nomeadamente a IA, «que permitirão que a profissão e os profissionais sejam mais analíticos, estratégicos e aprofundem o seu papel de conselheiros.» No reverso da medalha, identificou a falta de transparência e de privacidade como riscos que a IA pode «amplificar.»  A derradeira mensagem centrou-se em dois valores que andam de mãos dadas, confiança e reputação. »nunca deem nada por garantido, a confiança e a reputação demoram muito tempo a construir, mas podem ser derrubadas num ápice», alertou.

Painel 
«A inteligência artificial está a mudar tudo»

 

Depois de se ter escutado, de novo, o discurso que António José Seguro efetuara na abertura do 8.º Congresso, arrancou-se para o primeiro painel do dia, subordinado ao tema «A inteligência artificial está a mudar tudo», uma sequência perfeita após o que se ouvira da voz dos protagonistas que participaram no arranque dos trabalhos (Paula Franco, Aécio Dantas Júnior, Gonçalo Matias e Jean Bouquot).

 

Eis as ideias principais dos oradores:

«A IA deve existir para simplificar a vida das pessoas»
Luís Farrajota – Presidente do Instituto de Informática da Segurança Social

 

«A IA deve existir para simplificar a vida das pessoas. Deve servir para acrescentar valor e ser um acelerador para a relação entre as pessoas e instituições ou empresas. 
Na Segurança Social o objetivo não é ter mais IA, é termos uma Segurança Social mais simples, mais rápida, inteligente e segura.
Segunda ideia: a IA deve retirar trabalho repetitivo às pessoas, porque pior do que a burocracia é o burocrata. O valor das pessoas não diminui – muda de lugar. Quanto mais as máquinas forem capazes de executar, maior será o valor de quem sabe interpretar, questionar, aconselhar e decidir. 
A terceira ideia prende-se com uma IA para proteger o sistema. Proteger de documentos manipulados como atestados médicos, certificados de gravidez falsos, etc. Há uma multiplicidade de situações que podem ser detetadas. Isto é proteger o sistema.
Por fim, uma quarta ideia: nós queremos posicionar-nos ajudando a construir a solução e não sermos condicionados pela IA. Temos de proteger a confiança. Nesse sentido, a intervenção humana é decisiva. É preciso regulação reforçada e mais atenta, porque é necessária confiança e transparência no sistema.»

 

«Devemos começar sempre pelas pessoas, não pela tecnologia»
Mónica Caldas - Executive vice-president e CIO da Liberty Mutual Insurance

 

A comunicação assentou em três lições. Antes disso, a oradora defendeu que «devemos começar sempre pelas pessoas, não pela tecnologia. As pessoas são sempre o motor da transformação. Temos de ultrapassar a ideia de que a IA é só para aumentar a produtividade. 
As três lições são: capacitar antes de automatizar; termos a consciência de que a produtividade não é transformação; quanto maior é a capacidade de agir, maior é a necessidade de confiança.
De qualquer forma, a IA não elimina o julgamento profissional. Liberta capacidade para o aplicarmos onde cria mais valor.
No que toca à ética e confiança, recordo que inovação e responsabilidade não são forças opostas.»

 

«A primeira missão da IA na nossa profissão é devolver-nos tempo»
Estela Bastos - CEO da Visual Thinking

 

Antes da intervenção da oradora, Paula Franco subiu ao palco para anunciar que a Visual Thinking é uma empresa com quem a Ordem está a desenvolver uma secretária virtual para os contabilistas certificados e que, dentro de alguns meses, poderá estar disponível.
«Um contabilista certificado não devia nunca ser um sistema humano de notificações. Eu também sou CC há 25 anos. A primeira missão da IA na nossa profissão é devolver-nos tempo. Nós precisamos desse tempo.
A ideia da secretária virtual parte destes desafios: como usar a IA verdadeiramente ao serviço dos contabilistas? Porque não uma secretária virtual para cada um de nós, percebendo o que falta e que só nos chama quando realmente é preciso? Contudo, é importante sublinhar que deve merecer a nossa confiança, porque o problema não é tecnológico. 
Onde fica a responsabilidade humana? Primeiro governa-se só depois se automatiza. É necessário termos transparência onde estamos a usar IA e sabermos muito bem onde se situa a nossa responsabilidade.» 
Depois da demonstração do que pode fazer a secretária virtual, Estela Bastos sublinhou que a ferramenta «está a ser desenvolvida para que os CC tenham mais tempo para o que realmente importa. Estamos a devolver tempo a uma profissão inteira.»

 

«Não há um único ramo na saúde que não beneficie da IA»
Luis Goes Pinheiro - Presidente do Conselho de Administração dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde

 

«A qualidade dos dados é fundamental, sobretudo numa área como na saúde. Temos de criar, nos próximos dois anos, um sistema de interoperabilidade entre os agentes de saúde da União Europeia relativamente aos dados essenciais. Portugal cumprirá com facilidade as exigências do regulamento europeu porque estamos já avançados nessa área. 
Não há um único ramo na saúde que não beneficie da IA. Por exemplo, temos hoje um robô que fala com as pessoas no SNS 24 antes de falarem com um enfermeiro e que sugere encaminhamentos. Em 84 por cento dos casos, o enfermeiro segue a sugestão dada pelo robô. 
Outro exemplo: estamos a desenvolver uma ferramenta que permite corrigir melhor o agravamento de determinado tipo de doenças, como a hipertensão, diabetes, ansiedade e depressão. Até final do ano teremos uma ferramenta que ouvirá as consultas e registará os dados verdadeiramente importantes.
Segurança na transmissão de dados? Isso é sempre uma questão que nos preocupa porque vivemos tempos desafiantes. As mesmas ferramentas que nos servem para o bem também são usadas para o mal. 
Por fim, sublinhar que as pessoas têm de compreender as vantagens das ferramentas, estarem informadas sobre os seus potenciais erros, porque também os cometem, e é necessário que saibamos desmitificar os seus medos.»

 

Painel 
«Liderança, governança e estratégia»

 

O painel juntou alguns dos principais responsáveis, em diversas áreas, de empresas bem conhecidas de todos os portugueses.  Eis as suas principais ideias sobre os temas em discussão:

 

«A decisão de um líder não é solitária»
José Germano de Sousa, administrador do Grupo Germano de Sousa

 

«Onde fica a fronteira entre a família e a empresa? Não se discute negócios ao almoço do domingo. É uma responsabilidade acrescida quando se tem filhos, sobrinhos, etc. As empresas familiares só o são porque não faliram na primeira geração. Por isso, as novas gerações têm de perceber quais são as regras do jogo. As famílias devem ter um protocolo sobre quais são as regras quando se fala dos negócios.
Sou apaixonado pela fiscalidade, apesar de ser médico. A responsabilidade que os contabilistas certificados têm é enorme e julgo que deveriam começar por sugerir aos seus clientes literacia financeira para toda a família. 
Tenho de ter alicerces sólidos para pensar em frente. E isso só acontece se tiver balanços sólidos. Só assim consigo resistir às crises e o alicerce está em vocês, contabilistas. Inovação sim, mas com pés bem assentes e isso só é possível com os CC. 
A decisão de um líder não é solitária. Não pode ser. O mundo está cada vez mais especializado. O fator humano faz toda a diferença. 
Característica de um líder? Paixão, saber transmitir a paixão com o foco nas suas equipas.»

 

«As melhores decisões são tomadas com uma equipa»
António Eusébio, presidente do Conselho de Administração da Sumol Compal

 

«Nas empresas familiares, as soluções em termos de governo tendem a evoluir muitas vezes com a mudança de geração. A nível da empresa, a governance tende a diminuir com o crescimento e com a complexidade. 
Há características de liderança que temos de debater. Um líder não tem que ser um especialista em tecnologia, mas tem que estar bem acompanhado e assessorado, para que perceba bem o que será necessário fazer. De realçar ainda que nas empresas familiares, a perspetiva de longo prazo é bastante importante.
Para mim, as melhores decisões são tomadas com uma equipa. É verdade que o líder tem uma responsabilidade acrescida, de procurar consensos, mas acredito que as melhores decisões resultam de um trabalho de equipa. 
Características de um líder: visão e capacidade de mobilização.»

 

«A IA não vai substituir o CC»
Gonçalo Camolino, Chief Financial Officer da MEO

 

«Perante os acionistas é fulcral termos modelos de governação muito fortes. Os órgãos que tínhamos há 20 anos não podem ser os mesmos que temos hoje. Temos uma empresa com mais de 100 anos, com diversas gerações a trabalhar. É preciso ter todos estes equilíbrios em conta. 
Não dizemos sempre que não, mas devemos dizer algumas vezes que não. Mas também temos de saber dizer que sim, e isso só se faz com informação.
Gostaria de destacar três conceitos: crescimento, rentabilidade e criação de valor. Nem sempre crescer significa criar valor; podemos estar a ser rentáveis em determinado ano e cortar investimentos que vão prejudicar futuramente a empresa. 
É impossível prever com grau de certeza a 5/10 anos, mas devemos trabalhar e testar diversos cenários. É um desafio difícil, mas é fundamental a supervisão humana. É impossível uma pessoa abarcar todas as áreas. A IA não vai substituir o CC, porque todas as competências de análise são fulcrais. 
Como característica de um líder destaco a curiosidade.»

 

«O turismo viverá, possivelmente, uma situação de planalto nos próximos anos»
Bernardo Trindade, administrador do Grupo PortoBay Hotels & Resorts

 

«Numa empresa familiar temos vários desafios pela frente: gerir as expetativas de cada uma das famílias, por exemplo. É do diálogo intergeracional e com diversas opções que se constrói o caminho.
É muito importante que, no quadro das empresas, saber olhar para a individualidade e perceber o que de melhor existe em cada um de nós. 
Temos de ser bons ouvintes e estar disponíveis para construir uma relação de confiança com quem trabalha connosco. Temos de ter a tolerância para perceber o que cada pessoa pode trazer.
O mundo atual não se compadece com decisões individuais. Uma decisão tem de ser partilhada a vários níveis. No turismo, por exemplo, estamos especialmente expostos, pelo que temos de ser competentes. Teremos nos próximos anos, possivelmente, uma situação de planalto, com as receitas a estagnarem e as despesas a aumentarem. É essencial ter muito boa informação.  
Destaco como características de um líder a disponibilidade para ouvir e saber criar empatia com o problema do outro.»


«A Contabilidade não será menos humana por ser mais digital. Será mais estratégica»
Hélder Reis, secretário de Estado da Economia e Coesão Territorial

«O contabilista: o ativo invisível da economia» foi o tema da apresentação de Hélder Reis. O secretário de Estado da Economia e da Coesão Territorial começou por realçar que, no contexto da economia e das empresas, «tendemos a valorizar o que é mais visível mas, em simultâneo, existe uma dimensão menos visível, embora absolutamente essencial.» E essa dimensão é, precisamente, o fator confiança junto dos agentes económicos que é proporcionada pelo papel do contabilista certificado. «Produzir informação é produzir conhecimento com vista a melhores decisões.  E a informação fiável, rigorosa e credível permite antecipar, corrigir e criar valor. Por detrás de cada número existe uma decisão», disse. E é precisamente no atual complexo contexto que a economia e a sociedade atravessam que se «torna maior a necessidade de os profissionais exercerem o julgamento e gerar confiança», sempre entendidos numa lógica de «agentes de transformação» das organizações.  

De produzir informação, a dar sentido à informação

Hélder Reis acrescentou ainda que «a Contabilidade não será menos humana por ser mais digital. Será mais estratégica.» Para o governante, que já havia participado no 5.º Congresso dos Contabilistas Certificados, realizado em 2015, neste mesmo local, na condição de secretário de Estado do orçamento, os contabilistas estão perante uma grande oportunidade para incrementar o valor da profissão: «De uma lógica de produção de informação vão passar para uma lógica de dar sentido à informação, produzindo conhecimento para a decisão.» 
Após ter feito um balanço sobre o momento atual da economia nacional, Hélder Reis sustentou que o país precisa de «mais crescimento e mais riqueza, por forma a mitigar as ainda grandes assimetrias regionais e sociais existentes.»

 

Painel 
«Investir com inteligência»

 

Pedro Lino, CEO da Optmize Investment Partners

«Também sou contabilista certificado – tenho 40 por cento de uma empresa de contabilidade – e constato que, muitas vezes, as pessoas não dão o devido valor à nossa profissão. Temos de mudar essa perceção. Ao contabilista perguntam sempre que cobram muito e pedem descontos. Quando vão ao médico ou ao advogado perguntam se podem ter um desconto? Como criar mais valor? Ao nível das empresas, rentabilizar a liquidez disponível. Em termos dos colaboradores de administradores, compensá-los de forma fiscalmente eficiente. A retenção de talento é fundamental e caso as empresas falhem esse objetivo não vão sobreviver e será preciso introduzir mexidas ao nível da fiscalidade. As empresas têm 79,1 mil milhões de euros de montantes das empresas parados em depósitos. Sugiro que se invista na liquidez da empresa em fundos de investimento. As empresas não valorizam o longo prazo, mas na verdade esta perspetiva acaba sempre por compensar. Ter o dinheiro parado no banco é sempre perda. Temos medo de perder dinheiro.  Investindo de forma ponderada, no longo prazo e de forma diversificada a probabilidade de perda a 10 anos é praticamente zero. Finalmente, gostaria de alertar para terem cuidado com os You Tubers e outros influencers sobre eventuais esquemas que se aproveitam do dinheiro das pessoas (…)»

Emília Vieira, cofundadora e CEO da Casa de Investimentos

«É preciso levar mais conhecimento financeiro às pessoas e famílias e melhorar as condições de vida das pessoas. Neste sentido, o papel do contabilista certificado é muito importante. Confiança é um ingrediente fundamental para que uma economia cresça e seja confiável. Só se perde o medo de investimento com conhecimento e confiança. E não há uma única estratégica de investimento, é preciso diversificar.»

Pedro Andersson, jornalista da SIC e especialista em finanças pessoais, moderou o debate

«Sou do tempo em que os meus pais me diziam “No poupar é que está o ganho”. Hoje já não é assim. Temos de investir, mas antes é preciso aprender e agir.  O dinheiro é mais cabeça do que carteira. O importante é começar, avançar e tomar decisões. Num país em que o dinheiro é tabu, ver milhares de pessoas todas juntas nesta Meo Arena, que percebem de dinheiro e fiscalidade e são consultores financeiros é algo extraordinário. Os contabilistas têm quatro profissões em simultâneo: para além do seu trabalho, gerem o seu próprio dinheiro, são funcionários do Estado não remunerados e consultores financeiros da vida pessoal e privada dos vossos clientes. Têm, por isso, em mãos desafios gigantescos.»

O mandato na OCAM e a contabilidade em Moçambique

Praticamente a terminar 12 anos de mandato na liderança da Ordem dos Contabilistas e Auditores de Moçambique (OCAM), Mario Sitoe subiu ao palco da Meo Arena com um objetivo claro e inequívoco: agradecer. O bastonário da Ordem moçambicana lembrou o processo da criação da instituição, em 2014, e do papel que tanto Portugal como Brasil tiveram para dotar os profissionais e os dirigentes daquele país africano de formação, qualificação e ensinamentos numa altura em que a contabilidade estava a dar os primeiros passos.

Sitoe deixou uma palavra especial para o primeiro bastonário e fundador da OCC, António Domingues de Azevedo, falecido em 2016. «Foi o apoio de vários países e de várias organizações, nomeadamente no Brasil e em Portugal, que permitiram elevar no nosso país a profissão para um patamar superior», reconheceu. Mario Sitoe elencou ainda os valores da «confiança, responsabilidade e inovação», como centrais para o sucesso desta profissão em qualquer parte do mundo. Para finalizar, lançou um convite para o mês de novembro do próximo ano, altura em que se realizará em Maputo o 2.º congresso da OCAM.

Paula Franco distinguida com Medalha de Mérito pela ABRACICON

 

No arranque dos trabalhos, destaque para dois momentos altos que não constavam do programa. Depois da apresentação, em vídeo, da 16.º convenção de Contabilidade de Minas Gerais, no Brasil, em 2027, a jornalista Marta Atalaya anunciou a assinatura da «Declaração conjunta para o fortalecimento da cooperação luso-brasileira da Contabilidade.»

 

O compromisso, assinado por Paula Franco, bastonária da OCC, e Joaquim Bezerra, presidente do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), do Brasil, visa reforçar uma agenda conjunta e construtiva orientada para a partilha de conhecimento, desenvolvimento profissional, de inovação mas também promoção do interesse público.

 

Bezerra lembrou, na ocasião, que «este tratado começou lá atrás, não começou agora. Mas mudam-se as gerações e os compromissos permanecem fortalecidos e vivos.» Paula Franco salientou o reforço da «importância da cooperação entre países de língua portuguesa», aproveitando também o momento para se confessar «honrada» pelo facto de ser capa e motivo de destaque no n.º 280 da «Revista Brasileira de Contabilidade», de julho/agosto de 2026. A edição foi, aliás, disponibilizada a todos os congressistas.

 

Marta Atalaya anunciou, pouco depois, outro momento alto. A Academia Brasileira de Ciências Contábeis (ABRACICON) concedeu a Paula Franco a «Medalha de Mérito Contábil António Domingues de Azevedo», destinada a reconhecer personalidades que tenham contribuído de forma muito relevante para o reconhecimento e valorização da profissão contabilística nos países de língua portuguesa.

 

Coube a Maria Clara Bugarim explicar as razões para a atribuição da distinção e o porquê do nome dado, recordando o legado e o papel de Domingues de Azevedo no aprofundamento das relações com o Brasil, justificando a criação da medalha com o seu nome pelo facto de este ano se completarem 10 anos do seu desaparecimento. «Esta é uma forma de honrar esta relação de união e fraternidade. Dez anos depois da morte de Domingues de Azevedo estamos agora aqui para homenagear esta grande mulher que honra todo o passado e tradição. Você, Paula Franco, merece estar em todas as capas das nossas revistas. Todos os aplausos são merecidos para si», rematou a presidente da ABRACICON.

Painel
«Liderar para inspirar. Comunicar para transformar»

 

O terceiro painel dos trabalhos voltou-se para a importância de saber liderar e saber comunicar. Os dois intervenientes, num painel moderado por Marta Atalaya, deixaram ideias claras e bem vincadas.

 

«Um bom líder motiva pelo exemplo»
Pedro Reis, Vice-Presidente do Conselho do Consultivo Estratégico da CIMPOR e antigo ministro da Economia

 

«Sem liderança nada se consegue, com liderança tudo é possível.

 

Há oito características que vale a pena enunciar: primeiro, é necessário ter visão. Ou seja, prioridades claras, com realismo e foco, saber como é que se consegue fazer acontecer. Segunda característica: determinação. Se não houver será difícil chegar a algum lado. Em terceiro, a capacidade de mobilização, algo que falta muito no mundo e na Europa. Isto faz-se criando um sentimento de pertença. A OCC é uma referência na nossa saciedade neste ponto. A mobilização é tirar o melhor de cada um. Quarta: a curiosidade. Não há inovação sem atrevimento. É necessário arriscar. Quinta: a execução. No país dos diagnósticos tudo se mede pela ação e concretização. Sexta característica: a cultura, a mundivisão, a cabeça aberta, ter outros interesses paras além da profissão. Sétima: carisma. Fazer sonhar, mas também fazer acontecer. Oitava e última característica: ética, valores, integridade, liderança pelo exemplo. No nosso mundo pedem-nos cada vez mais isso.

 

É necessário fazer sonhar. Se não houver energia e alma os sacríficios não ganham sentido e a consistência não ganha horizontes.

 

Um bom líder motiva, primeiro pelo exemplo. O segundo é a partilha de resultados, sacrifícios, benefícios, se não houver uma contratualização justa não há autenticidade. Não podemos correr o risco de parecer artificiais, mas também não nos podemos fechar.

 

Os lideres não podem esquecer que têm de fazer outros lideres, seria ideal que não fossem necessários mas há momentos que está sozinho e, nessa altura, tem de ter a capacidade de decidir. Há momentos em que a tribo espera que os líderes assumam decisões difíceis.»

 

Sobre a desigualdade no acesso à liderança por parte das mulheres, Pedro Reis não teve dúvidas: «As mulheres são mais completas que os homens. Mais complexas, mas mais completas, mais multi task. Acho quase uma ofensa que, em 2026, tenhamos ainda de usar quotas nos boards, etc… Já que é assim, ao menos que isso funcione como um acelerador.

 

Se as novas gerações não querem hierarquias? As novas gerações são muito mais engajadas do que se possa pensar. Não se esqueçam que estamos nas funções, não somos as funções. Parece-me que os jovens são mais autênticos.

 

Mensagem final? Não podemos perder a esperança. O mundo está difícil mas não tem que correr tudo mal.»

 

«É necessário refletir sobre a comunicação dos intangíveis, como a confiança»
Mónica Seabra-Mendes, fundadora e sócia da Affluencial

 

«Característica distintiva de um bom líder? Visão. Visão é ter uma ideia, é como se fosse uma visão amplificada, que estamos agora a ver e que sabemos o que poderá significar.

 

O que impede mais mulheres de topo nas organizações? A estrutura da sociedade ainda está baseada em modelos antigos. O problema começa por aí. A profissão não deveria ser algo que tivéssemos de optar. Tem a ver com processos, temos de continuar a lutar, para assumir todos os postos que queiramos, nomeadamente a liderança. Há mulheres que não querem, e temos de respeitar isso, mas aquelas que querem devem lutar por isso.
Como deve ser a comunicação de um líder? A comunicação é sempre bilateral, é necessário saber ouvir, aprender e tirar o melhor das pessoas. Perceber o melhor de cada um e ver como podem contribuir para o todo.

 

Como se constrói nas equipas conforto para criticar o líder? O verdadeiro líder sabe ter essa capacidade. O verdadeiro líder escolhe as pessoas que até são melhor do que ele e que tenham ideias diferentes da sua e que são capazes de o dizer abertamente. É dessa dialética que nasce o progresso.»

 

Em relação ao tema do painel, é necessário refletir sobre a comunicação dos intangíveis, como confiança, exclusividade, relação com o cliente.»


Painel
«O futuro do relato de sustentabilidade versus desregulação»

 

Tendo, de novo, como moderador Diogo Agostinho, jornalista do ECO, o segundo painel vespertino olhou para a sustentabilidade e desregulação através de quem, em Estrasburgo ou à frente de entidades reguladoras a nível mundial, olham para o problema. As opiniões nem sempre foram concordantes, mas também é da discussão que, em tempos, costumava nascer a luz. E espera-se que assim continue a ser.

 

«A Europa adormeceu à sombra de três dependências»
Cotrim de Figueiredo, deputado ao Parlamento Europeu

 

«Sobre o excesso de regulação a nível europeu, o orador lembrou que «a nossa produtividade é pior hoje do que no princípio da década de 90. Foram 30 anos perdidos.

 

Temos a necessidade de fazermos depressa, a Europa adormeceu à sombra de três dependências: EUA na defesa; China na capacidade de exportação e Rússia na energia. Em cinco anos tudo isto desapareceu.

 

A Europa acordou, está consciente do problema. Estamos a fazer alguma coisa? O Relatório Draghi tem 352 recomendações. Dois anos depois, menos de 20 por cento das medidas estão executadas. Há reformas verdadeiramente difíceis. Como a dos mercados de capitais ou da Segurança Social. Estamos melhor do que no passado, mas ainda de forma insuficiente.

 

Não estou de acordo que a sustentabilidade tenha sido relegada para segundo plano.

 

É pomposamente anunciado que se vão cortar 13 por cento nos papéis. Isto significa que houve alguém que impôs estes custos às empresas. Não nos podemos esquecer disto.»

 

 

«Nós é que criamos os problemas de competitividade às nossas empresas»
Paulo do Nascimento Cabral, deputado ao Parlamento Europeu

 

«Se a Europa é este emaranhado de burocracia? Se competitividade e sustentabilidade rimam? Já fomos mais burocratas. Percebemos que a nossa competitividade estava em causa. Competitividade rima com simplificação, com pacotes Omnibus.

 

No relato da sustentabilidade corrigimos o rumo do anterior mandato. Uma má lei às vezes é melhor do que uma lei em constante mutação. Precisamos de relatório e de informação relevante. Precisamos de informação proporcional. Menos informação não significa menos transparência. Temos de trabalhar em dados que evitem o greenwashing.

 

O nosso objetivo é a simplificação, mas isso não é desregular. Temos feito um caminho consistente. Um mercado único completo é essencial na UE para competirmos a nível global.

 

A sustentabilidade tem de estar assente em três pilares: ambiental, social e económica. Temos de trabalhar muito na simplificação. Nós é que criamos os problemas de competitividade às nossas empresas. Não podemos continuar a exigir aos europeus 20 vezes mais do que chineses ou americanos exigem às suas empresas.»

 

 

«A informação verdadeiramente útil é a de qualidade»
Gabriela Figueiredo Dias, presidente da International Ethics Standards Board for Accountants (IESBA)

 

«Pergunta-me se menos informação não é menos transparência. A informação verdadeiramente útil é a de qualidade. Essa informação tem de ser completa, mais íntegra.

 

Esta é uma função crítica nos mercados. São os CC quem, assentes em princípios éticos, de rigor e de independência, garantem que a informação que chega é confiável. A sustentabilidade é um ponto mais crítico porque é um tema novo. É uma informação complexa, é uma informação mais focada na antecipação do futuro. A quantidade de elementos que é necessário ter em consideração é enorme. Não sou contra a simplificação. O problema pode estar nas mensagens que tudo isto passa. A simplificação não afasta os riscos, eles continuam lá. Há uma simplificação a fazer, mas há uma mensagem para que a Europa não desista de liderar as questões da sustentabilidade. Os CC são peças fundamentais desta transição, são fazedores desta transformação.

 

O mundo vai ultrapassar largamente a Europa? O mundo não avança todo na mesma direção. Os EUA saíram deste movimento, a Ásia está a avançar. Vejo um avanço muito significativo de longo prazo por toda a Ásia. A Europa tem que se posicionar de forma adequada. Temos de liderar uma agenda de sustentabilidade em sentido amplo, temos de nos posicionar de forma adequada.»

 

 

 

Painel 
«Atratividade, desenvolvimento e retenção de talento»

 

Amândio Silva, presidente do júri de exame da OCC

«Portugal e o mundo vivem um momento crucial, devido às mudanças em curso na tecnologia, nas empresas e na economia, que tornam urgente a atração de novos profissionais. Segundo dados de 2025, a realidade demográfica da profissão em Portugal apontava que o número de profissionais na faixa etária dos 40 anos era muito baixo, situando-se o maior número entre os 40 e os 60 anos. Tendo em vista a preparação do futuro, nos próximos anos, a profissão terá de integrar novos membros enquanto preserva o conhecimento acumulado durante décadas. O novo regime de acesso à profissão, que entrou em vigor há dois anos, foi um sucesso, caracterizando-se pela flexibilidade no percurso e a exigência no resultado. Para além disso, a alteração ao regime de acesso inverteu a tendência de decréscimo dos profissionais. É comovente ver a felicidade estampada no rosto dos membros que recebem os diplomas nas cerimónias organizadas pela Ordem, em Lisboa e Porto, e que é revelador da criação de um sentimento de pertença com a nossa organização»

Marta Santos, partner da People Consulting da EY

«Hoje, em dia o talento procura mais do que uma carreira, procura propósito, aprendizagem, evolução e experiência. Os empregadores devem alinhar e comunicar uma proposta de valor para atrair as pessoas certas para a profissão. Confesso que não gosto da palavra retenção, prefiro a palavra fidelização. O salário emocional só faz a diferença a partir de um determinado nível de conforto. Perspetivando o futuro, emergem três eixos: a mudança de mindset, as competências do futuro (skillset) e as formas de trabalhar e a tecnologia (toolset).»

Miguel Vásquez Tain, presidente do Consejo General de Economistas de Espanha

«As novas gerações partilham um conceito de vida totalmente distinto. A prioridade já não passa pelos salários, há outros aspetos mais relevantes.  Por exemplo, pedem flexibilidade, conciliação entre trabalho e vida pessoal e expetativas profissionais, etc. Aos empregadores só lhes resta conjugar todos estes fatores. Creio que é muito importante fazer uma mobilização para fazer pedagogia e a apologia da profissão.»

Paulo Ribeiro, partner-finance, HR e tax compliance managed services da Pwc Portugal

«Hoje é muito mais difícil o processo recrutamento. Ainda assim contratamos uma média de 70 a 90 pessoas por ano. Em primeiro lugar é preciso reconhecer que a culpa é nossa. As novas gerações são muito mais exigentes e não estamos a cumprir o objetivo de lhes dar mais autonomia e mais flexibilidade. Passamos o tempo a cumprir prazos, a submeter informação, etc. Contudo, a IA vai libertar tempo e pode resolver este problema, acrescentando mais valor à economia. Será uma oportunidade única para cumprir aquilo que há muito prometemos e também ambicionamos. Não tenho dúvidas que a profissão vai ser muito mais interessante. O salário emocional é importantíssimo, mas o salário ao fim do mês continua a ser muito importante. A competência que deve ser claramente valorizada é a capacidade de julgamento, ao nível das competências comportamentais e humanas.»

Maria Clara Bugarim, presidente da ABRACICON
A International Federation of Accountants (IFAC) está a desenvolver uma grande campanha de atratividade da profissão contabilística, no fundo, para contrariar a crise de recrutamento, reoxigenando a profissão e atraindo talentos. A chamada «geração Z», entre os 18 e os 23 anos, ambiciona uma profissão que oferece propósito e flexibilidade, estimulando-a para uma educação contínua. No Brasil a nossa classe tem cerca de 540 mil profissionais e também por lá a comunicação social afirma que os contabilistas estão seriamente ameaçados. Isto é uma mensagem errada. Nós somos importantes e não existe economia pujante sem o nosso trabalho. Jamais queremos ser invisíveis. É imperioso o reposicionamento da profissão e destacar o papel dos professores para formar uma nova geração, dotada de novas habilitações, que deve afirmar-se como o farol, nunca um espelho retrovisor. 

Painel 
«O Futuro do Futuro»

 

«O Futuro do Futuro» é um podcast do semanário «Expresso», que já vai na 5.ª temporada, em que o jornalista Pedro Miguel Coelho conversa com mentes brilhantes de diversas áreas sobre o admirável mundo novo que a tecnologia nos reserva. Uma autêntica janela aberta para as grandes inovações destes e dos próximos anos. O último episódio deste podcast foi gravado a 23 de setembro, na Meo Arena, no decurso do segundo dia de trabalhos do 8.º Congresso, e contou com a participação de André Vasconcelos e de «Afonso», o robô humanoide.

André Alpoim Vasconcelos, tax partner da Deloitte Portugal

«Fruto da Inteligência Artificial o trabalho do contabilista certificado incide mais no âmbito da supervisão e planeamento e não tanto na execução. O profissional passa a assumir um papel mais central no âmbito da consultoria estratégica e de apoio à decisão. É aqui que entra o reenquadramento destes profissionais, quer estejam a trabalhar por conta própria, quer estejam inseridos em organizações, a trabalhar por conta de outrem. Outra boa notícia é que os contabilistas vão poder ir dormir mais cedo. Documentos como a IES e a declaração modelo 22 serão feitos quase como por magia e ao profissional bastará apenas fazer a sua validação.
Relativamente ao recrutamento de recursos humanos, este ano contratámos até mais gente, mesmo com o inegável aumento dos processos de IA. A forma como se trabalha é que já é diferente do que era. Sobre a IA considero que estamos perante a revolução mais disruptiva da História, em particular pela velocidade com que está a ocorrer. Contudo, a IA é um acelerador e não um produto final em si mesmo. No que diz respeito às relações interpessoais acredito que os profissionais vão continuar a dar cartas. É preciso ter cautela com uma “armadilha subtil” que pode levar à perda de juízo crítico das gerações mais novas e isso deve ser um risco que deve ser prevenido.»

Afonso, robô humanoide

«Não assumo qualquer responsabilidade sobre os clientes e a sociedade. Entendo tudo, mas não decido. E que novos contabilistas emergem desta inovação chamada IA? O contabilista pode ficar com mais tempo para fazer perguntas e antecipar o que vai acontecer a seguir.»

Painel
«Bem-estar, a nova vantagem competitiva»

 

Vanda de Sousa, facilitadora de mindful leadership and wellbeing e farmacêutica

«A capacidade de presença e atenção é hoje um superpoder»

«Há 28 anos a trabalhar com organizações e em organizações conheço por dentro, ao nível do bem-estar organizacional, o que tem sido bem feito, o que está mal feito e o que tem de ser feito. Em termos do que fazemos mal, tratamos de «sintomas» sem mudar as causas, normalizamos o excesso como sinal de pertença e em termos de motivação, aumentamos a carga, mesmo quando ganhamos eficiência com a IA. É fundamental integrar processos e decisões, aprofundar na continuidade e escutar as necessidades e o impacto. A IA não muda apenas o trabalho, muda a experiência humana. Num mundo cada vez mais transformado pela IA o futuro do bem-estar não é proteger-nos da mudança. É desenvolver pessoas e organizações capazes de a atravessar sem perder saúde, critério, relações e liberdade de escolha. Perante este enquadramento, a capacidade de presença e atenção é hoje um superpoder, não só fora, mas em particular dentro das próprias organizações.»

Álvaro Beleza, presidente do conselho coordenador da SEDES e médico no Hospital de Santa Maria, em Lisboa

«Estamos a caminhar para uma economia do lazer»

«Portugal é o 7.º país do mundo em termos de atração de milionários e o 3.º na Europa. Porquê? Porque é um país que tem todas as condições para proporcionar bem-estar. Tem um clima fantástico, praias, paisagens, natureza, gastronomia, pessoas e é muito seguro. Vejo Portugal e Espanha um pouco como a Flórida e a Califórnia da Europa, com ambos a crescerem, como os estados norte-americanos, acima da média europeia. O bem-estar da população começa em dormir. Nós precisamos de dormir. Costumo até dizer que os espanhóis têm mais longevidade do que nós porque dormem a “siesta”. É preciso andar mais ou fazer exercício e comer menos e melhor. A receita é, por isso, conhecida de todos. Devemos aproveitar as ferramentas do mundo digital, nomeadamente o trabalho híbrido. Acredito que as profissões têm de ser mais flexíveis. Com a evolução tecnológica em curso estamos a caminhar para uma economia do lazer, em que vamos ter mais tempo livre para participar em atividades extraprofissionais.»
 

Painel
«O que podemos fazer para não nos autodestruirmos?»

 

«Pagamos um preço alto pela forma como estamos a trabalhar»
José Soares, especialista em performance de pessoas e equipas

 

«O que podemos fazer para não nos autodestruirmos?» A pergunta é isso mesmo, não passa de uma questão; a resposta é, obrigatoriamente, mais ampla e complexa.

 

José Soares é professor catedrático de Fisiologia na Universidade do Porto e uma referência quando se fala de performance humana, seja no desporto de alto rendimento, seja no mundo corporativo. Na última intervenção do dia, tentou responder à questão de abertura lançada neste texto, socorrendo-se da forma como a neuroquímica e a fisiologia explicam as nossas decisões, emoções e comportamentos.

 

Depois de ter trabalhado com atletas de alto rendimento, sobretudo de desportos motorizados, dedicou-se também a ajudar pessoas em underperformance, como mulheres com cancro da mama. E porque não transportar toda essa experiência para o mundo das organizações? Foi isso que, ao longo de cerca de meia hora orientou a sua exposição.

 

«Porque é que não se pode trazer a fisiologia para pessoas como vocês, para as organizações? Um email mal enviado, uma resposta torta à Autoridade Tributária pode ter mais consequências do que um piloto a cair a 300 quilómetros por hora.»

 

Depois de deixar claro que não é «um speaker motivacional», José Soares lembrou que «nem tudo é possível, e que essa coisa de dar as mãos, vestir a camisola e afins, tem dias.» Porque, como fez questão de vincar, há correlação entre a fisiologia do cérebro e muitos comportamentos: «Há pessoas que não gostam de partilhar nada. Há variações genéticas que explicam isso. Temos de ser tolerantes com as pessoas com diferentes mentalidades e isso está a chegar agora às empresas.»

 

Aquilo que faz a grande diferença num atleta «é a recuperação. Se pensarem num doente que faz ciclo de quimioterapia é a mesma coisa. Há quem recupere e há quem se veja obrigado a adiar as sessões. Se tivermos de trabalhar até às 4 da manhã, a esmagadora maioria de nós, fá-lo. O problema é se amanhã teremos essa disponibilidade. Isso é uma capacidade incrível do corporate athlete» E assim sendo, lembrou o orador, «na biologia não há almoços grátis. Pagamos um preço alto pela forma como estamos a trabalhar», alertando ainda para outro pormenor: «Na maioria das vezes, o nosso ego limita-nos muito, porque temos de assumir a necessidade de fazer alterações na nossa rotina e na nossa vida.» Contudo, garantiu, «se estivermos bem preparados, podemos sempre ver a luz ao fundo do túnel.»

 

GALERIA DIA 2 - 23 DE SETEMBRO DE 2026

TRANSMISSÃO DIA 23 DE SETEMBRO DE 2026