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8.º Congresso - 24 de setembro de 2026 (dia 3)
24 Setembro 2026
Da intervenção assertiva de Paulo Portas, ao espetáculo de encerramento, passando pelas ideias deixadas por Cláudia Reis Duarte, Carlos Abreu Amorim, Teresa Anjinho, Paula Franco e Sebastião Bugalho: eis os protagonistas deste terceiro e último dia de congresso.

«O esforço de cooperação internacional está a ser substituído por uma espécie de reality show permanente.»
A visão global do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas

 

O terceiro e último dia do 8.º Congresso dos Contabilistas Certificados arrancou com uma análise 360.º sobre o novo xadrez da política e economia mundial. E quem melhor do que Paulo Portas, antigo vice-primeiro ministro e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros para partilhar com a assistência os grandes problemas e desafios que a todos impactam. O habitual protagonista do programa «Global», transmitido todos os domingos à noite na TVI, “transportou” a sua análise dos estúdios de Queluz de Baixo para a arena da maior sala de espetáculos do país.
Muito crítico em relação ao estado de «desordem» em que vivemos, Paulo Portas referiu que «este é um mundo difícil de explicar e de entender» e que os problemas «não se resolvem com twitts e com gritos. O esforço de cooperação internacional está a ser substituído por uma espécie de reality show permanente.» 

«Se Putin prevalecer na Ucrânia, provavelmente ele não parará por aí»

O conflito a leste não podia deixar de ser tema. «A guerra que não acaba na Europa e que se arrasta há praticamente cinco invernos consecutivos já leva mais tempo do que a Primeira Grande Guerra, no século passado», disse. Por seu lado, há ainda o impasse na situação no Médio Oriente que já se arrasta há 8 meses, quando tudo fazia crer num conflito rápido. «Do princípio ao fim este conflito é um erro tático e estratégico», argumentou. Enquanto isso, os juros das principais economias sobem, a dívida americana superou os 40 triliões e, «como vivemos numa economia dolarizada, acabamos por pagar todos.» Sobre o desenrolar do conflito entre o Irão e os Estados Unidos, o antigo jornalista não poupou críticas a Washington: «Subestimaram Ormuz, o que nunca aconteceria se o presidente americano tivesse um assessor português que lhe explicasse a História deste local. Portugal conquistou duas vezes Ormuz para controlar o comércio de especiarias.»

Mas regressando à Europa, os receios sobre as reais intenções de Vladimir Putin também inquietam Paulo Portas: «Se Putin prevalecer na Ucrânia, provavelmente ele não parará por aí. E se assim for ele pode testar o artigo 5.º da NATO. Se não houver reação dos Estados Unidos, a NATO deixará, de uma vez por todas, de ser uma entidade de segurança coletiva e passará a ser uma ONG», advertiu. «A Rússia quer que nos cansemos do conflito e a deixemos de ganhar», alertou Portas. Sobre as próximas eleições intercalares americanas, agendadas para novembro, o comentador antecipou dificuldades para o partido do incumbente na Casa Branca, Donald Trump. «Os americanos votam com a carteira. É tudo uma questão de contabilidade, também», disse. A parte derradeira da intervenção centrou-se na Europa e no impacto da Inteligência Artificial. Sobre o «velho» continente, referiu que «não é uma superpotência geopolítica e não tem uma Defesa temida e respeitada.» Para Portas, «a Europa tem de fazer reformas para continuar a ser uma potência geoeconómica, reforçando a competitividade económica e promovendo alianças com países prósperos, para além do Canadá, a Noruega e a Suíça.» A questão demográfica foi outra dimensão que mereceu o enfoque do orador: «44,3 anos é a idade média dos europeus e para novinhos não vamos».

A dificuldade de recrutar recursos humanos, o gap de produtividade muito alto em relação aos Estados Unidos e o facto de ter saído do pódio da inovação, foram aspetos sublinhados no âmbito da perda de influência da Europa. Em simultâneo, a ascensão dos extremos também inquieta Portas: «Se a Europa continuar a votar em quintas colunas não se pode arrepender do que pode acontecer.»

Altman e Amodei, «bêbados a fazerem manifestações a favor da Lei Seca»

O último tópico foi a inteligência artificial. «Tem aspetos magníficos, especialmente na saúde e no envelhecimento e vai aumentar a produtividade das empresas. Isto é consensual. mas é preciso especial cuidado na área da Defesa e da Segurança.» Portas identificou ainda outro lado sombrio desta tecnologia de ponta: «Tenham cuidado com a apropriação de funções profissionais, nomeadamente os psicólogos e os psiquiatras virtuais que tudo fazem para capturar a atenção dos miúdos.»  As questões relacionadas com os direitos de autor e os direitos de propriedade intelectual vão, antecipa Paulo Portas, acabar em tribunal, explicando-se isto pelo facto de esta área da IA estar ainda «desregulada».

O orador propõe uma pausa para pensar e relativamente aos receios agora manifestados pelos líderes da OpenAI e Anthropic sobre os eventuais riscos da IA, Sam Altman e Dario Amodei, respetivamente, Portas definiu o seu comportamento de uma forma caricata: «Parecem bêbados a fazerem manifestações a favor da Lei Seca». 

Para rematar, uma sintética, mas muito clara referência aos anfitriões deste congresso: «Sobre vós, só posso dizer isto: não conheço economia que não funcione sem a vossa profissão.»