«O esforço de cooperação internacional está a ser substituído por uma espécie de reality show permanente.»
A visão global do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas
O terceiro e último dia do 8.º Congresso dos Contabilistas Certificados arrancou com uma análise 360.º sobre o novo xadrez da política e economia mundial. E quem melhor do que Paulo Portas, antigo vice-primeiro ministro e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros para partilhar com a assistência os grandes problemas e desafios que a todos impactam. O habitual protagonista do programa «Global», transmitido todos os domingos à noite na TVI, “transportou” a sua análise dos estúdios de Queluz de Baixo para a arena da maior sala de espetáculos do país.
Muito crítico em relação ao estado de «desordem» em que vivemos, Paulo Portas referiu que «este é um mundo difícil de explicar e de entender» e que os problemas «não se resolvem com twitts e com gritos. O esforço de cooperação internacional está a ser substituído por uma espécie de reality show permanente.»
«Se Putin prevalecer na Ucrânia, provavelmente ele não parará por aí»
O conflito a leste não podia deixar de ser tema. «A guerra que não acaba na Europa e que se arrasta há praticamente cinco invernos consecutivos já leva mais tempo do que a Primeira Grande Guerra, no século passado», disse. Por seu lado, há ainda o impasse na situação no Médio Oriente que já se arrasta há 8 meses, quando tudo fazia crer num conflito rápido. «Do princípio ao fim este conflito é um erro tático e estratégico», argumentou. Enquanto isso, os juros das principais economias sobem, a dívida americana superou os 40 triliões e, «como vivemos numa economia dolarizada, acabamos por pagar todos.» Sobre o desenrolar do conflito entre o Irão e os Estados Unidos, o antigo jornalista não poupou críticas a Washington: «Subestimaram Ormuz, o que nunca aconteceria se o presidente americano tivesse um assessor português que lhe explicasse a História deste local. Portugal conquistou duas vezes Ormuz para controlar o comércio de especiarias.»
Mas regressando à Europa, os receios sobre as reais intenções de Vladimir Putin também inquietam Paulo Portas: «Se Putin prevalecer na Ucrânia, provavelmente ele não parará por aí. E se assim for ele pode testar o artigo 5.º da NATO. Se não houver reação dos Estados Unidos, a NATO deixará, de uma vez por todas, de ser uma entidade de segurança coletiva e passará a ser uma ONG», advertiu. «A Rússia quer que nos cansemos do conflito e a deixemos de ganhar», alertou Portas. Sobre as próximas eleições intercalares americanas, agendadas para novembro, o comentador antecipou dificuldades para o partido do incumbente na Casa Branca, Donald Trump. «Os americanos votam com a carteira. É tudo uma questão de contabilidade, também», disse. A parte derradeira da intervenção centrou-se na Europa e no impacto da Inteligência Artificial. Sobre o «velho» continente, referiu que «não é uma superpotência geopolítica e não tem uma Defesa temida e respeitada.» Para Portas, «a Europa tem de fazer reformas para continuar a ser uma potência geoeconómica, reforçando a competitividade económica e promovendo alianças com países prósperos, para além do Canadá, a Noruega e a Suíça.» A questão demográfica foi outra dimensão que mereceu o enfoque do orador: «44,3 anos é a idade média dos europeus e para novinhos não vamos».
A dificuldade de recrutar recursos humanos, o gap de produtividade muito alto em relação aos Estados Unidos e o facto de ter saído do pódio da inovação, foram aspetos sublinhados no âmbito da perda de influência da Europa. Em simultâneo, a ascensão dos extremos também inquieta Portas: «Se a Europa continuar a votar em quintas colunas não se pode arrepender do que pode acontecer.»
Altman e Amodei, «bêbados a fazerem manifestações a favor da Lei Seca»
O último tópico foi a inteligência artificial. «Tem aspetos magníficos, especialmente na saúde e no envelhecimento e vai aumentar a produtividade das empresas. Isto é consensual. mas é preciso especial cuidado na área da Defesa e da Segurança.» Portas identificou ainda outro lado sombrio desta tecnologia de ponta: «Tenham cuidado com a apropriação de funções profissionais, nomeadamente os psicólogos e os psiquiatras virtuais que tudo fazem para capturar a atenção dos miúdos.» As questões relacionadas com os direitos de autor e os direitos de propriedade intelectual vão, antecipa Paulo Portas, acabar em tribunal, explicando-se isto pelo facto de esta área da IA estar ainda «desregulada».
O orador propõe uma pausa para pensar e relativamente aos receios agora manifestados pelos líderes da OpenAI e Anthropic sobre os eventuais riscos da IA, Sam Altman e Dario Amodei, respetivamente, Portas definiu o seu comportamento de uma forma caricata: «Parecem bêbados a fazerem manifestações a favor da Lei Seca».
Para rematar, uma sintética, mas muito clara referência aos anfitriões deste congresso: «Sobre vós, só posso dizer isto: não conheço economia que não funcione sem a vossa profissão.»