Pela 16.ª edição consecutiva, a Ordem dos Contabilistas Certificados (OCC) e a Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP) uniram esforços e consolidaram a parceria existente, promovendo a tradicional conferência sobre a gestão das atividades agrícola e silvícola, desta feita, tendo por mote «as empresas e os contabilistas como parceiros estratégicos».
Inserido, como é habitual, na Feira Nacional da Agricultura, este evento, realizado a 9 de junho, juntou mais de três centenas de pessoas no grande auditório do CNEMA.
Coube a Luís Mira, secretário-geral da CAP, pronunciar as primeiras palavras, tendo destacado a temática incontornável da mão de obra imigrante no setor agrícola: «5 em cada 10 trabalhadores do setor agrícola são estrangeiros, sendo de origem asiática 60 por cento. E esta é uma percentagem que vai aumentar nos próximos anos, não há volta a dar». O responsável da CAP admitiu que nem tudo está a ser feito para que Portugal seja visto no exterior como um país que tem condições para acolher imigrantes. «Há muita demora para a emissão de documentos, a emissão dos NISS, a demora que existe para abrir uma conta, etc.».
Paula Franco afinou pelo mesmo diapasão: «Fala-se cada vez mais de tecnologia e de Inteligência Artificial (IA) e continuamos todos envoltos em burocracias, ansiando por mais celeridade e soluções rápidas. As empresas agrícolas e os próprios contabilistas certificados sentem na pele, todos os dias, estes obstáculos», defendeu a bastonária. «Alterar o modus operandi de muitas funcionalidades com que lidamos no dia a dia devia ser um objetivo elevado a desígnio nacional», sustentou a responsável máxima da OCC.
José Manuel Fernandes reservou as palavras iniciais da sua intervenção para a bastonária e os contabilistas certificados. E foram palavras de agradecimento. «Para Paula Franco, pela proatividade, o empenho e a generosidade do trabalho desenvolvido». Para os contabilistas certificados que «funcionam como uma espécie de “balcão descentralizado do Estado”, em que a proximidade está sempre presente. Estes profissionais também significam coesão territorial, porque estão representados um pouco por todo o país.» O ministro da Agricultura e do Mar acrescentou que os contabilistas são parceiros estratégicos na relação do Estado. Sobre a receita para combater a burocracia, o titular da pasta lembrou que «há muito boa gente que vive à custa da burocracia e sempre que se propõem alterações, exercem a sua resistência.» O ministro argumentou ainda que o «país precisa de acelerar» e que a «guerra à burocracia», como foi definida pelo primeiro-ministro, também se faz com contributos e sugestões de toda a sociedade. Para concluir, elencou quatro palavras determinantes para uma nova era, que deixe a burocracia no passado: interoperabilidade, digitalização, simplificação e modernização.
«Imigração regulada, com regras claras e humanista»
O primeiro painel foi subordinado ao tema «Protocolo de cooperação para a migração laboral regulada – “Via verde”», tendo a moderação competido a Cristina Morais. A chefe de gabinete da direção da CAP lembrou que a falta de trabalhadores no meio agrícola intensificou-se em 2008, estimando-se que muito em breve a percentagem de imigrantes no setor possa alcançar os 70 por cento. Fábio Garcia, do departamento de migrações da CAP, apresentou com detalhe o Protocolo de Cooperação para a Migração Laboral Regulada (PCMLR), também conhecido como "Via Verde", um canal dedicado e prioritário para a concessão de vistos de trabalho a cidadãos estrangeiros. O processo exige cinco garantias fundamentais antes da chegada do trabalhador e encurta a avaliação consular para um prazo-alvo de 20 dias. O protocolo, assinado a 1 de abril de 2025, resulta de uma colaboração entre o governo, através de diversas entidades públicas e o tecido empresarial. O responsável da Confederação dos Agricultores referiu que este mecanismo «permite o reforço da imigração digna e regulada, combatendo todas as más práticas e prevenindo a exploração laboral.»
Em representação da AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) esteve César Teixeira, a quem coube o balanço da implementação de um ano desta “via verde”. O vogal do conselho diretivo da AIMA sublinhou que «a administração pública deve estar focada na resolução dos problemas das pessoas e das empresas e não na resolução dos seus próprios problemas.» Após o atual governo ter tido entre mãos a «tarefa hercúlea» de regularizar os cerca de 600 mil processos pendentes, César Teixeira revelou estarem por decidir «cerca de 2 a 3 por cento da panóplia de processos paralisados. De uma vez por todas, é preciso começar a trabalhar numa lógica de normalidade», disse. Elegendo como grandes pressupostos, «uma imigração regulada, com regras claras e humanista», o dirigente da AIMA deixou no ar a possibilidade de, no futuro, as empresas poderem passar a submeter os pedidos de autorização de residência dos seus trabalhadores nas plataformas da AIMA.