«Como é que os podemos ajudar, sendo ajudados por vocês?»
A questão que Sebastião Bugalho deixou aos CC, no debate com Paula Franco, no derradeiro painel do Congresso
«O posicionamento económico estratégico de Portugal e da Europa». Foi este o mote para uma conversa descontraída entre Paula Franco e Sebastião Bugalho, deputado ao Parlamento Europeu. A aparente descontração não implicou, contudo, a ausência de argumentos sérios.
Depois de ter recordado o papel insubstituível da Ordem como entidade formadora, «o que é uma mais-valia para a economia e para o Estado», Bugalho, em jeito de meia resposta à questão lançada por Paula Franco - será que se consegue ter respostas para aquilo que as empresas e cidadãos precisam? – lembrou que, «quando nós acertamos ninguém repara, quando se comete um erro toda a gente vai apontar o dedo. Há esta similitude entre os políticos e os contabilistas». A outra parte da resposta surgiu em forma de pergunta. «Como é que nós os podemos ajudar, sendo ajudados por vocês?» Ou seja, lembrou o eurodeputado, «teremos 400 mil milhões de euros de fundos europeus para a competitividade. São fundos para os quais as empresas, câmaras, instituições, terão de batalhar. São fundos que podem vir para Portugal se nos candidatarmos a eles, mas só os teremos se tivermos dimensão. Como podemos fazer? Com candidaturas conjuntas com entidades de outros países.» Esta nova realidade avança já a partir de 1 de janeiro de 2028 e já se percebeu que a contabilidade de tudo isto «vai cair no colo dos contabilistas.» Os papéis inverteram-se e a questão foi lançada para Paula Franco: «Qual a melhor forma de ajudarmos a Ordem e de a Ordem nos ajudar?»
A resposta surgiu de imediato. «Temos um problema crónico nestes processos. Esperemos que o normativo seja claro e objetivo sobre aquilo que pretende. A função dos contabilistas certificados é perceber o que se quer, pelo que a legislação tem de ser muito clara. Isto é fundamental para que se cumpra esta missão.»Centrando depois a sua resposta para dentro de portas, que é como quem diz, do país, a bastonária lembrou que a Ordem «pode ajudar o Governo a fazer melhor. Os contabilistas certificados estão sempre a fazer-nos chegar relatos daquilo que corre mal. Isto é um enorme ativo e o governo deve utilizar isto com inteligência a seu favor, prevenindo tudo aquilo que tem de prevenir.»
E assim, quando se fala de burocracia «há uma vontade enorme em retirar os custos administrativos às empresas, mas, na prática, não sentimos isso. Nestes últimos seis meses, o Governo revela duas velocidades. Há a necessidade de querer a simplificação administrativa, mas depois temos os pequenos poderes instituídos que trazem burocracia todos os dias. Os contabilistas aqui presentes podem dar exemplos concretos daquilo que se complicou nos últimos seis meses.»
Face a este cenário, uma questão ressaltou: «Quando é que o Governo consegue colocar todos os organismos públicos a falarem a uma só voz para verdadeiramente simplificar?» A questão arrancou aplausos e Bugalho, na resposta, depois de lembrar que não faz parte do Governo, adiantou não haver «ninguém que queira mais que os resultados das reformas cheguem às pessoas e às empresas do que os políticos.» Aliás, em Bruxelas, lembrou o também porta-voz do PSD, «sentimos que muitas vezes as instituições políticas olham para os problemas como um ciclope, apenas com um olho. O custo anual da burocracia é de 150 mil milhões de euros. A Comissão Europeia já aprovou 12 pacotes que se traduziram na abolição de 17 mil milhões de euros de encargos administrativos anuais de cima das empresas. Se chega? Não, mas foram passos importantes que já foram dados.»
Paulo Franco voltou a insistir na necessidade de que todas estas alterações e reformas sejam conhecidas com celeridade e deixou a certeza de que «o governo não comunica bem… A Ordem, por exemplo, tem uma comunicação muito eficaz e poderia ajudar a difundir algumas dessas medidas. Se conseguíssemos diminuir uma série de situações que vivemos todos os dias, o país ganharia muito e teria um impacto enorme no desenvolvimento da nossa economia.»
Bugalho alinhou com essas preocupações e foi mais longe: «Isso para nós também é uma grande angústia. Sabemos que, por vezes, essas boas medidas não têm tradução na agenda mediática. Parece que as pessoas gostam mais de sal e pimenta do que da própria refeição.»
Depois de tecer críticas às políticas editoriais dos órgãos de comunicação social, e num momento de empolgamento, disparou: «Ou somos todos maus comunicadores ou, de facto, temos um problema com a comunicação social. Temos de perguntar porque é que as coisas acontecem e não nos chegam, porque é que só é ouvido quem berra, quem diz disparates, ou quem aparece com os gatinhos ao colo. Qualquer dia tenho de fazer a barba em direto no Instagram para ser ouvido.»
Bugalho partiu depois para outras paragens. Lembrou que a Europa «já percebeu que não tinha outra hipótese de não perceber.» Ou seja, a Europa percebeu que «para se defender e ser ouvida terá de o fazer através da sua competitividade. Ou mete a economia a mexer ou torna-se irrelevante neste mundo cada vez mais hostil.»
Mas esse parece ser também um caminho longo e penoso. Até porque, de acordo com Sebastião Bugalho, citando dados de um relatório do Tribunal de Contas Europeu, «apenas 3 por cento dos fundos europeus foram executados pelas empresas. Isto é assustador. As empresas não conseguiram executar 97 por cento dos fundos.» Números reveladores, mas que, na opinião de Bugalho, terão de ser alterados rapidamente. «Até 2029 vamos mesmo remover 35 por cento da carga burocrática e administrativa sobre as empresas. Isso tem de ser feito e vai ser feito.»
Este último painel do 8.º Congresso não terminaria sem um novo repto lançado por Paula Franco: como é que se pode reter talento na Europa, mas, sobretudo, em Portugal?
Bugalho foi lesto na resposta: «Isso faz-se com políticas nacionais e europeias, com uma noção da Europa que seja integral entre as regiões. 80 por cento dos fundos para inovação tecnológica foram para cinco países: Alemanha, Itália, Espanha, Holanda e França. Que é que isto quer dizer? Esses fundos ainda estão concentrados nos mais ricos. Temos de ter em conta a diversidade regional da Europa. Isso é que é o projeto europeu. Porque o futuro para os jovens é o direito ao futuro para todos. Esse é que é o ponto.» Ponto final.